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Tributo ao ruralista desconhecido
Data:12/09/2017 - Hora:16h43
Tributo ao ruralista desconhecido
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Um dos maiores e mais conhecidos indigenistas brasileiro começou a sua relação com esta causa de forma curiosa. Orlando Villas Bôas se juntou a seus dois irmãos [Cláudio e Leonardo] com o interesse de conhecerem o interior do país. Os Villas Bôas vieram de família do interior paulista, de modo que “conhecer o interior”, como desejavam, era se embrenhar mata adentro, na desconhecida selva amazônica.

E assim o fizeram.

No livro Histórias e causos (FTD, 2005), uma autobiografia finalizada “pós mortem” pela viúva de Orlando Villas Bôas [falecido em 2002], é registrada com riqueza de detalhes o processo da Marcha para o Oeste, a descoberta de povos indígenas como os Xavante, o contato com tribos até então desconhecidas, e o início da colonização de cidades nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Narra o indigenista que o processo de criação do Parque Indígena do Xingu (PIX), no estado de Mato Grosso, em 1961, envolveu o esforço de parte da intelectualidade da época, como o antropólogo Darcy Ribeiro e o Marechal Rondon, que supostamente seria descendente do bravo povo Bororo. Se pronunciaram favoráveis à causa da demarcação daquela faixa de terra políticos como o ex-vice-presidente Café Filho e ex-presidente Jânio Quadros, sendo que este último tem na criação do Parque do Xingu uma das melhores iniciativas em seu curto mandato presidencial, que durou sete meses.

A burguesia de Mato Grosso era contra a demarcação de terras para os povos indígenas, ao que se parece naquela época já prevalecia o interesse de “passar o correntão” na floresta e transformar tudo em campos de cultivo de capim ou cana-de-açúcar. Segundo conta Villas Bôas, o então prefeito de Campo Grande (atual Mato Grosso do Sul) o médico Ary Coelho, se dirigiu até o Departamento de Terras (ou Companhia de Estradas e Rodagens – CER), e lá teria criticado a obstrução à criação do Parque do Xingu e a promoção de entrega dessas terras ao latifúndio. Foi assassinado no local, com tiros desferidos por um diretor do órgão público.

Morreu porque era contra a invasão de terras levadas a cabo pelo latifúndio para impedir a demarcação do território que hoje abriga 14 povos indígenas, o PIX.

Outra versão, dita “oficial”, diz que o prefeito campo-grandense fora assassinado por motivação política, já que era potencial candidato a governador. Outra hipótese diz que ele teria sido morto por uma jornalista, a quem ameaçara. À época Mato Grosso e Mato Grosso do Sul eram um só, e o Departamento de Terras (ou CER) era sediado em Cuiabá.

O fato é que os colonizadores nunca concordaram e nem fizeram esforços para uma convivência pacífica com os povos indígenas, a quem tentaram primeiro a dominação pela “assimilação”, depois a escravização e – derrotados – depois os condenaram à extinção pela força das armas.

Isso tudo tem consequência em nossos dias.

A política da burguesia continua sendo comandada pelos ruralistas, que dominam governos e parlamentos, e seus pontos de vista resultam em leis que tornam pior a vida das pessoas, protegem interesses capitalistas do agronegócio, e condenam o Planeta Terra, com a destruição do meio ambiente.

Hoje na Câmara dos Deputados há uma forte influência dos parlamentares ruralistas. São 222 deputados federais da “bancada do boi”, que se somam à “bancada da bala” e à “bancada da bíblia” e votam em bloco. Aprovaram a terceirização, o fim da CLT e o “perdão” ao multi encrencado Michel Temer. E querem acabar com a demarcação de terras indígenas, cometendo genocídio contra os defensores das florestas, aprovando o texto da PEC 215.

Aliás, em troca do “habeas parlamentar” a Temer, os ruralistas ganharam uma anistia de dívidas que chega a R$ 8,6 bilhões. O agronegócio, que já não paga muito imposto, ganhou mais essa graça do consórcio Temer/PSDB. E esse setor da economia utiliza o estado na defesa de seus interesses, obtendo da Advocacia-Geral da União (AGU) um parecer jurídico dizendo que são terras indígenas somente aquelas áreas ocupadas por índios em 1988, data em que foi promulgada a atual Constituição federal.

Mas a situação dramática do clima e do meio ambiente reclama urgente a mudança de hábitos, pena de extinção do modo de vida da raça humana, em pouco tempo. E não se trata de papo militante, bastam as informações científicas produzidas.

Sabe esse calor de 41 graus logo de manhã e a chuva que desapareceu, tornando a cidade uma extensão do deserto? Há várias causas, a mais contundente é a destruição das florestas.

O cientista brasileiro Antonio Donato Nobre publicou uma resumo de estudos científicos intitulado “Futuro climático da Amazônia” (Nobre, 2014) e mostra os efeitos nefastos da destruição das florestas. As árvores funcionariam como uma forte bomba d’água, que busca lençóis freáticos por meio de suas raízes, e após a fotossíntese libera vapores que criam as nuvens. E as nuvens geram as chuvas, após alguns fenômenos naturais.

Com a derrubada das florestas a chuva não vem, a temperatura ambiente aumenta, e as nuvens se acumulam nos mares, gerando tempestades. Por isso é cada vez mais comum a ocorrência das tempestades catastróficas e furacões em regiões próximas ao mar.

Segundo o relatório científico de Antonio Donato Nobre, a floresta mantém úmido o ar em movimento, e isso leva chuvas para as áreas continente-adentro, distantes dos oceanos. Esse fenômeno decorre da “capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração”(Nobre, 2014).

Segundo o cientista existem 600 bilhões de árvores na Amazônia e em um típico dia de sol cada uma delas produz até 1.000 litros de água, que é retirada do solo e que geram as nuvens, por meio da transpiração. Mas no ritmo da destruição atual são necessários esforços para paralisar as agressões à natureza de imediato. Isso significa suspender a construção de usinas e destruição de florestas, por “correntão” ou queimadas. E replantar 150 milhões de hectares de florestas.

E por que esses números superlativos? Porque em 2015 o desmatamento voltou a crescer no Brasil, seguindo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e em 2016 somente na Amazônia o desmate cresceu 30%.

O caos climático em curso possui o potencial de ser incomensuravelmente mais danoso para a vida humana do que foi a Segunda Guerra Mundial. A China já reconheceu a gravidade do problema, e já trilha o caminho de recuperação da vegetação, sendo o país que mais refloresta. Proteger a floresta é a melhor aposta contra o caos climático, uma apólice de seguro contra o fim do mundo.

Ainda bem que o “ruralista desconhecido” já sabe disso, e milita contra seus parceiros do agronegócio, alertando para o fim das queimadas e pelo reflorestamento das áreas degradadas. Ele sabe que nesse ritmo de escassez de chuvas e de excesso de calor, em bem pouco tempo o ar atmosférico terá qualidade insuficiente. E é bem provável que a água e o ar nos sejam vendidos em garrafinhas, como os achocolatados e os refrigerantes cancerígenos.

Ah, e o ruralista desconhecido sabe que aí é o fim do agronegócio.

Vilson Pedro Nery, advogado especialista em Direito Público.


fonte: por Vilson Pedro Nery

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