Um fenômeno climático e de saberes ancestrais pantaneiros, conhecido como “Janeirinho”, ressurge no berço do Pantanal mato-grossense, em Cáceres, anunciando um cenário preocupante de baixos níveis de água para a vasta planície. Após décadas, os primeiros 30 dias de janeiro de 2026 registram índices pluviométricos alarmantemente baixos, evocando memórias de secas históricas.
A sabedoria popular pantaneira, transmitida por gerações e observada por séculos pelos povos indígenas Bororo, Giatós e Cabaçais, utiliza o “Janeirinho” – a análise dos primeiros doze dias do ano, a partir do dia 2 de janeiro – para prever o ritmo das águas no Rio Paraguai nos meses subsequentes. Neste ano, a “ciência de antanho” se consolida e antevê um ano de baixo volume de água em toda a extensão do Pantanal Mato-grossense.
Rios “Caixas D’Água” com níveis críticos
Os principais rios formadores da maior planície alagada do mundo que drenam a região de Cáceres – Sepotuba, Cabaçal e Jauru, apelidados de “caixas d’águas” do Rio Paraguai – tiveram raríssimas pancadas de chuvas até esta quinta-feira, 30 de janeiro de 2026. A régua da Marinha do Brasil, em Cáceres, registrou níveis abaixo de dois metros na maior parte do mês, um índice que não era verificado no município desde o período entre 1966 e 1969.
Desde então, essa expressiva diminuição no volume de água não havia sido observada nas criteriosas sondagens da Marinha Brasileira na região. A ausência de chuvas impacta diretamente o fluxo de água que desce, inundando o Pantanal de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, e as áreas conhecidas como Chaco, no Paraguai, e o Pantanal Boliviano.
Convergência de saberes e preocupação com o bioma
As observações empíricas da ancestralidade pantaneira, agora corroboradas pelos dados técnicos, indicam que o Pantanal poderá enfrentar um período de seca acentuada. A exuberância da cheia no Rio Paraguai, em Cáceres, que em tempos passados atraía centenas de moradores e turistas, pode se tornar uma lembrança distante, registrada apenas em fotografias.
Especialistas e cientistas que estudam o Pantanal, independentemente de suas abordagens, começam a convergir com a riqueza dos saberes das nações que há milênios habitam esse importante bioma. A previsão de baixo volume de água ressalta a importância da integração do conhecimento tradicional e científico para compreender e enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas e suas consequências para um dos ecossistemas mais ricos e sensíveis do planeta.