Prisões de Angeliquinha e de suspeito de envolvimento em três homicídios expõem deslocamento de integrantes de facções para o país vizinho; ambos eram procurados pela Justiça de Mato Grosso
A prisão, em um intervalo de poucos dias, de dois criminosos procurados pela Justiça de Mato Grosso em território boliviano chama atenção para o uso do país vizinho como esconderijo de integrantes de organizações criminosas que atuam no Estado. Os dois casos têm pontos em comum: suspeitos ligados a facções, mandados de prisão expedidos em Mato Grosso e localização após intercâmbio de informações entre autoridades brasileiras e bolivianas.
O caso de maior repercussão é o de Angélica Saraiva de Sá, de 34 anos, conhecida como Angeliquinha. Apontada pela Polícia Civil como uma das lideranças de uma facção criminosa no extremo norte de Mato Grosso, ela foi presa na terça-feira (22), em Santa Cruz de la Sierra, depois de permanecer mais de um ano foragida.

Nesta quinta-feira (24), Angeliquinha foi entregue à Polícia Federal em Corumbá (MS). A transferência para Mato Grosso depende agora de procedimentos judiciais. Ela estava foragida desde 17 de agosto de 2025, quando escapou da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá.
Segundo a Polícia Civil, Angeliquinha acumula mais de 260 anos em condenações por crimes como homicídio, tráfico de drogas e organização criminosa. As investigações atribuem a ela influência sobre atividades criminosas na região de Alta Floresta, incluindo tráfico, extorsões e ações relacionadas a áreas de garimpo.
A polícia também afirma que, durante o período em que permaneceu escondida em Santa Cruz de la Sierra, Angeliquinha vivia em uma residência de alto padrão e havia realizado procedimentos estéticos para modificar a aparência. No momento da prisão, apresentou um documento brasileiro falso.
OUTRO FORAGIDO
A prisão de Angeliquinha não foi um episódio isolado. Outro procurado pela Justiça mato-grossense, Pedro Henrique Lima Ferreira, de 24 anos, também foi localizado na Bolívia nesta semana.
Ele foi preso em uma propriedade rural no município de San Ignacio de Velasco, no departamento de Santa Cruz. Segundo as informações da investigação, Pedro Henrique era procurado por suspeita de participação em pelo menos três homicídios registrados na região de Comodoro, em Mato Grosso, e é apontado como integrante de uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas na faixa de fronteira.
A captura ocorreu durante uma ação das forças de segurança bolivianas e contou com informações compartilhadas pela Polícia Civil de Mato Grosso, por meio da Regional de Pontes e Lacerda.
Com o suspeito e outros homens que estavam na propriedade, foram apreendidas duas pistolas calibre 9 milímetros, uma escopeta calibre 12, celulares e três motocicletas que, segundo a polícia, seriam utilizadas em ações criminosas.
Pedro tinha mandado de prisão preventiva expedido pela Comarca de Comodoro. Inicialmente, a ordem estava relacionada a um homicídio ocorrido em abril deste ano, mas as investigações também apontaram possível envolvimento dele em outros dois assassinatos na região.
Após a prisão, ele foi levado para uma unidade da Fuerza Especial de Lucha Contra el Crimen (FELCC) e permanece submetido aos procedimentos legais das autoridades bolivianas. A captura deverá ser comunicada ao Judiciário brasileiro para as providências relacionadas a uma eventual transferência para o Brasil.
COOPERAÇÃO NA FRONTEIRA
Os dois episódios mostram a importância da troca de informações entre as forças de segurança dos dois países para localizar foragidos de Mato Grosso. No caso de Angeliquinha, a operação envolveu a Polícia Civil, por meio da Gerência de Combate ao Crime Organizado, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado e da Gerência Estadual de Polinter, além das autoridades bolivianas.
Já na captura de Pedro Henrique, informações da Regional de Pontes e Lacerda foram compartilhadas com as forças policiais da Bolívia até a localização do suspeito.
Os casos, contudo, ainda não permitem dimensionar quantos procurados pela Justiça de Mato Grosso utilizam a Bolívia como esconderijo. O material disponível não informa quantos foragidos do Estado foram presos no país vizinho em 2025 e 2026.