As mudanças recentes nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) acenderam um sinal de alerta entre representantes do setor de formação de condutores em Mato Grosso. O presidente da Associação das Autoescolas do Estado, Márcio Manoel de Campos, avalia que os impactos das novas normas podem ser sentidos em curto prazo e projeta que, em até seis meses, o trânsito já apresentará situações preocupantes em decorrência da flexibilização no processo de formação.
Segundo Márcio, o setor sempre defendeu a desburocratização do sistema e a redução de custos para o candidato, mas a diminuição drástica da carga horária prática é vista com ressalvas. “A única coisa que a gente acha complicada nesse momento é a quantidade de aulas, porque é muito pouco para você avaliar uma pessoa, só duas aulas”, afirmou. Para ele, a mudança representa um “sucateamento da educação”, ao substituir uma formação estruturada por um modelo simplificado, que não garante domínio mínimo do veículo.
Outro ponto sensível destacado pelo presidente da associação é a retirada da baliza como critério central de avaliação. Na avaliação dele, o exercício sempre funcionou como um termômetro técnico do candidato. “A baliza é onde a gente mede o nível de conhecimento do candidato. Imagina você ir para uma rua sem ter o mínimo de domínio de um carro”, disse, ao demonstrar preocupação com motoristas iniciantes inseridos precocemente no tráfego urbano.
Márcio também criticou a ausência da exigência de comando duplo nos veículos utilizados por instrutores autônomos. Ele lembra que, tradicionalmente, carros de autoescola contam com embreagem e freio duplicados para garantir segurança durante o ensino. “Como eu posso pensar em ensinar alguém se eu não tenho um comando de segurança? Em caso de alguém pular na frente ou de um descontrole, você precisa ter condição de parar o veículo”, argumentou.
Questionado sobre os estudos do governo federal que embasaram as mudanças, o dirigente reconhece que todo modelo novo precisa ser testado, mas reforça o tom de cautela. “Acredito que com o passar do tempo o trânsito vai mostrar isso. Em questão de seis meses a gente pode começar a ver coisas que a gente não queria”, avaliou.
Embora o modelo não seja inédito no mundo, Márcio ressalta que países onde o sistema funciona contam com fiscalização rígida e forte cultura de educação no trânsito. “A autoescola dá a base. O problema é que aqui falta fiscalização. Não pense em andar sem habilitação nos Estados Unidos, porque vai nascer um guarda e vai te parar. Aqui isso não acontece”, comparou.
Por fim, ele defende um meio-termo: menos burocracia, mas sem precarizar a formação. Para Márcio, o ideal seria manter a obrigatoriedade de passar por centros de formação, ainda que sem número fixo de aulas, valorizando a estrutura e a qualificação dos instrutores. “Hoje a nossa formação é de 180 horas, com teoria e prática. O instrutor proposto agora é formado em meia hora, num tablet. Isso é muito preocupante”, concluiu.