A trajetória de João Arcanjo Ribeiro, chamado de Comendador, ex-policial civil que se tornou o nome mais emblemático do jogo do bicho em Mato Grosso, vai ganhar adaptação para o streaming. O projeto, ainda em fase de desenvolvimento tem a supervisão da mesma equipe responsável por Os Donos do Jogo – produção que retrata a contravenção no Rio de Janeiro.
A confirmação do projeto coloca novamente em evidência a trajetória do homem que dominou o jogo do bicho em Mato Grosso por décadas. Mais do que anunciar a produção audiovisual, o interesse do streaming reacende um questionamento inevitável: quem é, afinal, o personagem real por trás do apelido “Comendador”?

João Arcanjo durante cumprimento de mandado de busca na casa dele. – Foto: Divulgação/PJC-MT
Do interior de Goiás ao império do jogo em MT
João Arcanjo Ribeiro nasceu em Goiás e chegou ao antigo Mato Grosso ainda antes da divisão que criou o Mato Grosso do Sul. Atuou como policial civil na região sul do estado e, depois da reorganização territorial, fixou residência em Cuiabá.
As investigações apontam que, nos anos seguintes, ele se tornou peça central de um acordo entre grupos exploradores do jogo do bicho, assumindo o controle da atividade no estado. O império teria se expandido para cassinos clandestinos, factoring e outros negócios que, segundo o Ministério Público, serviriam para lavagem de dinheiro.
O apelido “Comendador” passou a simbolizar poder e influência — tanto no meio empresarial quanto nos bastidores políticos.

Arcanjo e o ex-deputado José Riva. – Foto: reprodução
Operação Arca de Noé: o auge e a queda
Em 2002, a Polícia Federal deflagrou a Operação Arca de Noé, que investigou um suposto esquema milionário envolvendo desvio de recursos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). A acusação incluía uso de cheques de uma factoring ligada a Arcanjo.
No ano seguinte, em ação penal na Justiça Federal, ele foi condenado por lavagem de dinheiro e operação irregular de instituição financeira. A pena inicial se aproximava de 40 anos, mas foi reduzida pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região para 11 anos.
Arcanjo cumpriu quase duas décadas de prisão ao longo dos processos que respondeu.

João Arcanjo Ribeiro é conhecido como “Comendador”. Foto: PJC/MT
Prescrição, anulação e devolução bilionária
Um dos fatos mais recentes e que pode ser explorado na série é a reviravolta judicial envolvendo a Arca de Noé.
Decisão do TRF anulou a condenação de 11 anos e 4 meses relacionada ao caso. O fundamento incluiu a questão da extradição negada pelo Uruguai à época e, posteriormente, o reconhecimento da prescrição punitiva.
A idade também foi determinante: após os 70 anos, os prazos prescricionais são reduzidos pela metade. Aos 72, Arcanjo foi beneficiado por esse entendimento jurídico.
Outro ponto sensível envolve os bens apreendidos, avaliados em cerca de R$ 1 bilhão. Parte já foi leiloada: fazenda arrematada por R$ 12 milhões em 2021, lotes avaliados em mais de R$ 80 milhões no ano seguinte e um condomínio residencial vendido em 2023 por R$ 14,5 milhões. Ainda não há definição pública sobre como será feita eventual restituição.
Assassinatos e a sombra da violência
O nome de Arcanjo também aparece ligado a crimes de maior gravidade. O assassinato do empresário e jornalista Sávio Brandão, dono do jornal Folha do Estado, em 2002, marcou a história recente da imprensa mato-grossense.
Hércules de Araújo Agostinho foi condenado a mais de 160 anos por diversos homicídios e confessou ter matado o empresário Rivelino Jacques Brunini a mando de Arcanjo. As acusações reforçaram a imagem de um império sustentado não apenas pela contravenção, mas por violência e intimidação.

João Arcanjo durante audiência na Justiça de MT. – Foto: reprodução TVCA
De personagem local a drama nacional
O interesse da Netflix por histórias reais ligadas ao crime organizado segue uma tendência já vista em Os Donos do Jogo, thriller que mergulha na disputa pelo jogo do bicho no Rio de Janeiro.
A adaptação da trajetória do “Comendador” promete explorar bastidores políticos, acordos silenciosos, disputas internas e a complexa relação entre poder econômico e influência institucional no Centro-Oeste.
Mais do que contar a história de um ex-bicheiro, a produção deve revisitar um dos períodos mais turbulentos da política e da segurança pública em Mato Grosso, com personagens que ainda despertam controvérsia.
Se na Justiça a história teve capítulos de condenação, anulação e prescrição, no streaming o enredo promete ganhar nova narrativa. E, desta vez, sob os holofotes do país inteiro.