Nesta última semana de verão e com a subida do Rio Paraguai, em Cáceres — a 210 quilômetros a oeste de Cuiabá —, que registra nível acima de 4 metros na régua de medição da Marinha do Brasil, moradores e turistas assistem diariamente a um fenômeno natural que se repete anualmente no município: o deslocamento de porções formadas por plantas aquáticas chamadas de “camalotes”, que se desprendem das baías, lagoas e das margens do rio, descendo em direção ao sul do Pantanal Mato-grossense.
A movimentação das pequenas ilhotas verdes atrai a população e visitantes para a contemplação à beira do Cais do Porto, situado no Centro Histórico de Cáceres.
Mas esse fenômeno não é apenas bonito; ele traz consigo, em sua trajetória forçada pela correnteza, alguns contratempos para os proprietários de chalanas, hotéis e outras embarcações. Neste ano, parte dos camalotes foi sugada pelas bombas de captação de água da autarquia Águas do Pantanal, deixando praticamente a maioria dos bairros da cidade com o abastecimento comprometido por quase uma semana. Com ações conjuntas, a Prefeitura, juntamente com efetivos cedidos pelo Exército e pela Marinha, o problema foi resolvido.
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A TAPAGEM
Os aguapés, capins e outras vegetações que formam os camalotes foram empregados durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) como uma barreira natural que impediu a subida da Flotilha Paraguaia, para tomar a então Vila Maria do Paraguai (atual Cáceres).
As tropas do ditador paraguaio Francisco Solano López haviam tomado todas as cidades e vilarejos situados no sul da então Província de Mato Grosso. Caíram Dourados, Miranda, Forte de Coimbra e Corumbá.
Solano tencionava tomar Cáceres e controlar o leste boliviano e ainda o Rio Guaporé, que dá acesso ao Amazonas e, por consequência, ao Oceano Atlântico.
Vila Maria do Paraguai não havia contingente militar. A população, com menos de mil moradores, foi à luta, aumentando com foices e facões a quantidade de camalotes que tapou as Lagoas Uberaba e Gaíva, travando a passagem dos paraguaios.
Ainda assim, como forma de uma rendição, a população deslocou um único canhão e a imagem de Nossa Senhora do Carmo, que foi plantada no topo do Morro Pelado (permanece até os dias atuais), na margem esquerda do Rio Paraguai, a cerca de 100 quilômetros rio abaixo de Cáceres.
Um detalhe: Nossa Senhora do Carmo, ou Nuestra Señora del Carmen, é a padroeira da Espanha e do Paraguai. A afixação da imagem, caso os paraguaios ultrapassassem as baías de Uberaba e Gaíva, a exposição da santa significava”nós nos rendemos”.
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Como forma de reconhecimento, Cáceres mudou o nome para São Luiz de Cáceres e, posteriormente, devido à confusão com documentos oficiais entre outras cidades brasileiras que também homenageiam São Luiz, optou por extrair o nome do santo francês, ficando apenas Cáceres.
As principais ruas do Centro Histórico de Cáceres homenageiam episódios e combatentes dessa guerra, como Humaitá, Riachuelo, Marcílio Dias, Comandante Balduíno, Tamandaré, Almirante Barroso e outros.
Na área central, a Rua da Tapagem, essencialmente comercial, com filiais da Riachuelo e das Lojas Americanas, lembra o feito da Tapagem. Em uma das casas nessa via pública, um torcedor do Vasco inovou na década de 1950, mandou fazer um mosaico na parede da varanda.
Como herança dessa guerra sangrenta, ficou o apelido de Cáceres, “Princesinha do Paraguai”, numa alusão à princesa que Solano não conquistou e o jargão “Xômano”, que originalmente significa “Aqui não, Solano”.