Equipamento registra em tempo real dados climáticos e do pulso de inundação do Pantanal. Instalado pela Ecoa com recursos do GEF Terrestre e apoio de Pew e GNF, a estação fortalece a gestão do parque em ano de alto risco de incêndios florestais.
Uma lacuna histórica no monitoramento ambiental do Pantanal começa a ser preenchida. No dia 24 de abril, a Ecoa inaugurou uma estação hidrometeorológica no Parque Nacional do Pantanal Matogrossense – Unidade de Conservação (UC) federal, localizada na região da confluência dos rios Paraguai e Cuiabá-São Lourenço, na divisa dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O equipamento, instalado por meio do projeto “Manejo Integrado do Fogo com as comunidades tradicionais e o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense na transformação da realidade local”, financiado pelo Funbio/GEF Terrestre, passa a registrar em tempo real dados climáticos e fluviais essenciais para a gestão do parque.
A inauguração reuniu representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Ecoa, cujos aportes, junto ao Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e à organização The Pew Charitable Trusts, tornaram possível a aquisição e a instalação do equipamento, fornecido pela empresa Naturwelt.

Uma estação, dois registros fundamentais
O equipamento integra dois tipos de monitoramento: o climático e o hidrológico. Do ponto de vista meteorológico, registra temperatura, umidade, pluviosidade, pressão atmosférica, velocidade e direção do vento. Do ponto de vista hidrológico, monitora o nível do Rio Cuiabá-São Lourenço, acompanhando as variações do pulso de inundação (cheia, vazante, seca e enchente que caracterizam a dinâmica do Pantanal).
Os dados são automatizados e ficam disponíveis em tempo real para a gestão do parque via tablet. Uma mudança significativa em relação ao cenário anterior, em que a UC dependia de estações externas, sem cobertura específica para a região da sede do parque.
Segundo Nuno Rodrigues da Silva, chefe do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, a localização da estação é estratégica: “A região do Parque Nacional, na confluência dos dois rios, era deficitária dessas informações do pulso de inundação. Essa estação vem preencher uma lacuna muito importante na planície de inundação do Pantanal, justamente nessa área da confluência dos rios Paraguai e Cuiabá-São Lourenço”.
O momento: por que 2026 torna essa estação ainda mais urgente
A inauguração ocorre em um contexto de alerta climático crescente para o Pantanal. Projeções de centros internacionais de monitoramento, como a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam alta probabilidade de formação de um novo evento de El Niño ao longo de 2026, com intensificação no segundo semestre. No Brasil, análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec) apontam para a elevação das temperaturas, maior frequência de ondas de calor e irregularidade no regime de chuvas, aumentando significativamente o risco de incêndios florestais no Pantanal.
A Ecoa acompanha historicamente essas projeções climáticas e assim como em anos anteriores, recomenda a antecipação de medidas preventivas por parte de instituições públicas, brigadas e comunidades locais. Nesse cenário, a instalação de uma estação hidrometeorológica dentro do parque representa um avanço estratégico: além de preencher uma lacuna histórica de dados, o equipamento permite correlacionar variáveis climáticas e hidrológicas com a ocorrência de incêndios e, em situações de combate, fornece informações em tempo real – como velocidade e direção do vento – essenciais para a tomada de decisão em campo.
Para Nuno, a utilidade da estação vai além da prevenção ao fogo:
“A gente vai poder correlacionar períodos maiores ou menores de enchente com a abundância de fauna, com a dinâmica das populações de peixes, com projetos de restauração de vegetação. São dados que contribuem de forma muito significativa para a gestão do Parque como um todo”.
Uma parceria construída ao longo de décadas
A estação é o resultado mais recente de uma relação institucional que a Ecoa constrói há décadas com o Parque Nacional e com as comunidades do entorno. Ao longo desse histórico, a organização atuou na formação de brigadas comunitárias voluntárias na região da Serra do Amolar, em ações de educação ambiental, em processos de diálogo sobre o plano de manejo da UC e nas negociações que reconheceram os direitos da Comunidade Tradicional da Barra do São Lourenço.
Nos últimos anos, por meio do projeto GEF Terrestre – financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), sob gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) – a parceria ampliou a capacidade operacional do parque com embarcações, equipamentos para as brigadas de incêndio e, agora, a estação hidrometeorológica.
“A Ecoa é bastante atuante na região do Parque Nacional, sempre como parceira no sentido de apoiar as populações tradicionais, e mais recentemente na questão dos incêndios florestais, capacitando e equipando as comunidades ribeirinhas, avalia Nuno. “É uma parceria que a gente vê que tem os resultados voltados para a gestão e para a conservação do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense.”




Sobre o projeto
A estação hidrometeorológica foi adquirida e instalada com recursos do GEF Terrestre e apoio financeiro da The Pew Charitable Trusts.
O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense foi criado em 1981 e abrange aproximadamente 182 mil hectares de planície alagável na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade e Sítio Ramsar, o parque protege habitats de onças-pintadas, ariranhas, cervos-do-pantanal e tatus-canastra, além de ser fundamental para a manutenção do pulso de inundação que sustenta toda a dinâmica ecológica do bioma.