Por muitos anos, o produtor rural Celso Pisato conviveu com um desafio que impedia novos investimentos na Fazenda Bela Vista, em Porto Estrela. A propriedade, recebida por meio de um espólio familiar, ainda enfrentava pendências documentais e etapas de regularização em cartório. Essa situação dificultava o acesso a crédito em instituições financeiras tradicionais.
O pecuarista tinha planos de expandir a produção e avançar para um sistema de cria, recria e engorda, porém não tinha o capital para dar o próximo passo. Ele conta que foi nesse momento que conheceu o Fiagro, um fundo de investimento no agronegócio gerenciado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar MT).
“Minha principal dificuldade era a documentação. Como a fazenda veio de um espólio, ainda faltavam algumas etapas de registro. Foi aí que apareceu a opção do Fiagro. É um recurso que ajuda muito quem trabalha com pecuária, porque dá um alívio financeiro e permite oferecer uma alimentação de melhor qualidade para os animais”, conta Celso.
Atendido pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar MT, o produtor conheceu a linha de crédito por meio do técnico de campo Felipe Mateus da Silva Machado, em Porto Estrela.
Após conseguir o fundo pelo projeto, Celso conseguiu colocar em prática um projeto que vinha sendo planejado há anos: testar um sistema de recria intensiva na propriedade.
Segundo o pecuarista, o primeiro lote de animais foi desmamado aos cinco meses de idade e agora segue em fase de recria, com a expectativa de chegar ao abate aos 12 meses.
“Esse recurso permitiu que eu realizasse esse teste, porque é preciso ter capital para manter os animais até o final do projeto. Você precisa comprar os insumos e os alimentos em maior quantidade para conseguir um preço melhor. Foi justamente esse recurso que possibilitou a aquisição de toda a alimentação necessária para os animais”, explica.
Celso afirma que, além de financiar a compra de insumos, o crédito do Fiagro trouxe mais segurança financeira. Segundo ele, antes ele precisava custear as despesas com o dinheiro da venda dos bezerros na desmama.
“Agora, com esse financiamento, consigo manter os animais até o abate. Depois disso, a intenção é utilizar esse retorno para iniciar um novo confinamento e fazer um novo teste”, conta.
O objetivo do pecuarista é aumentar o giro da propriedade. Ou seja, fazer dois ou até três giros por ano, vender esse lote, comprar novos animais e, ao mesmo tempo, conseguir segurar os bezerros que vão nascer e desmamar ainda em 2026.
Todo o processo de contratação foi acompanhado pelo técnico da ATeG, desde a apresentação da linha de crédito até o envio da documentação.
“Desde o início, todo o processo foi conduzido com a orientação do técnico Mateus. Eu fornecia os documentos que ele solicitava e ele encaminhava todo o processo. Houve muito pouca burocracia e tudo foi bastante rápido”, lembra Celso.
O produtor também acompanhou cada etapa pelo aplicativo Conecta Produtor. “Ali era possível ver quando a proposta estava em análise, as etapas do processo e acompanhar as visitas técnicas”, diz.
As etapas do acompanhamento
Para o técnico Felipe Matheus da Silva Machado, da ATeG, o crédito do pecuarista veio justamente para destravar um investimento que, de outra forma, seria difícil de ser realizado.
“O projeto Fiagro veio para somar na propriedade do Celso. Como ele enfrentava dificuldades relacionadas à documentação, a tomada de crédito acabou ficando mais difícil nas instituições financeiras. Após um treinamento promovido pelo Senar, apresentei o projeto, fizemos uma simulação e iniciamos todo o processo”, explica.
Segundo ele, a principal necessidade da fazenda era aumentar a capacidade de investimento.
“O Celso precisava se capitalizar. Como não tinha acesso ao crédito e também não possuía capital em caixa, precisou vender alguns animais para manter o giro da propriedade rural. Com a aprovação do crédito, conseguiu investir principalmente na compra de insumos para estruturar melhor a atividade”, diz.
A experiência também abriu novas perspectivas para a propriedade. Mateus conta que a intenção agora é ampliar a quantidade de animais no sistema de recria intensiva e, futuramente, implantar uma terminação intensiva, que poderá ser a pasto ou em sistema fechado.
Para o supervisor de campo do Senar MT, Marcelo Monteiro, o Fiagro se tornou um importante aliado da ATeG.
“O Fiagro vem como uma ferramenta financeira para agregar ainda mais valor ao trabalho da ATeG. O técnico leva orientações de produção, manejo e gestão e, quando identificamos oportunidades de melhoria, o crédito ajuda a transformar esse planejamento em investimento dentro da fazenda”, detalha
De acordo com o supervisor, a combinação entre assistência técnica e acesso ao crédito tem apresentado resultados positivos.
“Quando conseguimos mensurar os resultados por meio da análise gerencial e ainda contar com o aporte financeiro proporcionado pelo Fiagro, percebemos o quanto essa ferramenta é importante para impulsionar o desenvolvimento das propriedades”, pontua.
Como funciona o Fiagro?
O programa está disponível para produtores rurais de Mato Grosso atendidos pela ATeG há pelo menos 12 meses, com valores que variam de R$ 30 mil a R$ 300 mil.
Em Porto Estrela, o Sindicato Rural também acompanha de perto os impactos da iniciativa. Mobilizadora há dez anos, Elediana Miranda, conhecida como Leide, afirma que o programa surgiu como uma alternativa para produtores que enfrentam dificuldades no sistema financeiro tradicional.
“Muitas vezes o produtor tenta buscar um financiamento em banco, mas encontra muita burocracia. O Fiagro veio justamente para facilitar esse acesso ao crédito, considerando as necessidades de cada propriedade”, conta.
A agente orientadora do programa, Dayane Ferreira, explica que o processo de análise é simples e ágil.
“O agente de crédito acompanha toda a análise da documentação e a coleta das informações necessárias. Depois, o processo é encaminhado para a instituição gestora e, após a aprovação, normalmente em cerca de sete dias, o recurso é liberado para o produtor”, explica.