A substância encontrada impregnada em cerca de 260 toneladas de madeira, apreendidas em junho na fronteira do Brasil com a Bolívia, em Corumbá (MS) e Cáceres (MT), não era cocaína, segundo laudos da Polícia Federal.

Receita Federal, Polícia Federal e Exército Brasileiro fizeram a possível maior apreensão de drogas durante operação. (Foto: Divulgação)
A apreensão, inicialmente anunciada como a maior da história envolvendo esse tipo de droga, passou a ser alvo de questionamentos por parte das autoridades bolivianas, enquanto a carga segue retida pela Receita Federal em território brasileiro.
A reportagem teve acesso, nesta quarta-feira (22), aos laudos de Perícia Criminal Federal, elaborados pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) da Polícia Federal, em Brasília.
Tanto o relatório referente às amostras coletadas em Mato Grosso do Sul quanto o produzido com o material apreendido em Mato Grosso apresentaram a mesma conclusão.
Conforme os laudos, os exames realizados em todas as amostras analisadas (fragmentos retirados dos troncos de madeira ) tiveram resultado negativo para cocaína.

Droga líquida infiltrada em madeira. – Foto: Divulgação
Segundo o relatório pericial, cada amostra passou inicialmente por inspeção visual, na qual foram avaliadas características como coloração, textura e marcas presentes na madeira.
Na etapa seguinte, os fragmentos foram submetidos a um processo de extração com solução química, cujo material foi posteriormente evaporado. Os resíduos obtidos após a secagem receberam solventes específicos e foram analisados para verificar eventual compatibilidade com o padrão químico da cocaína.
Os exames identificaram apenas substâncias naturalmente encontradas em materiais vegetais, sem qualquer indício da presença de cocaína.
A Polícia Federal ainda não se manifestou oficialmente sobre o resultado dos laudos. Procurada pela reportagem, a Receita Federal em Mato Grosso do Sul informou que ainda não teve acesso aos laudos definitivos.
A apreensão
A carga de madeira era transportada em oito caminhões apreendidos no dia 21 de junho. Quatro veículos foram interceptados em Corumbá (MS) e os outros quatro em Cáceres (MT), municípios localizados na faixa de fronteira com a Bolívia.
Na ocasião, exames preliminares indicaram a presença de cocaína líquida impregnada na madeira, o que levou as autoridades a tratarem o caso como uma das maiores apreensões de droga já registradas no país.
De acordo com a Receita Federal, com base em ocorrências anteriores, estimava-se que entre 10% e 20% do peso total da madeira pudesse corresponder à droga. Com isso, a carga apreendida poderia conter entre 20 e 50 toneladas de cocaína, volume que, se confirmado, faria da operação a maior apreensão da história do Brasil e a segunda maior do mundo.
A suspeita ganhou ainda mais força porque, em junho deste ano, a aduana chilena apreendeu cerca de 100 toneladas de cocaína ocultas pelo mesmo método: droga líquida infiltrada em madeira proveniente da Bolívia. Informações de inteligência compartilhadas pelos Estados Unidos apontavam possível ligação entre os dois casos, com origem em um mesmo centro de produção boliviano.
Operação coordenada
A operação brasileira integrou a “Timber Shield”, ação coordenada entre a Receita Federal, a agência antidrogas norte-americana (DEA) e a Aduana Nacional da Bolívia.
À época, o ministro da Fazenda destacou, em publicação nas redes sociais, a sofisticação do esquema utilizado por organizações criminosas e ressaltou a importância da cooperação internacional no combate ao tráfico transnacional de drogas.