Do interior de Mato Grosso para algumas das maiores altitudes do planeta. O advogado Weder Lacerda, de Pontes e Lacerda, decidiu transformar a paixão por montanhas em um projeto de vida e já conquistou dois dos chamados Sete Cumes, desafio que reúne as montanhas mais altas de cada continente.
A primeira grande conquista foi o Aconcágua, na Argentina. Depois veio o Monte Elbrus, na Rússia, alcançado em 31 de agosto. A meta agora é completar as outras cinco montanhas que fazem parte do desafio.
Antes das expedições internacionais, porém, Weder já carregava desde a infância uma inquietação que o levava a praticar esportes, explorar cachoeiras e rios e buscar novas experiências.
Nascido em Pontes e Lacerda e criado em escolas públicas, ele praticou vôlei, handebol e atletismo. Durante o ensino médio, chegou a receber uma bolsa de estudos em uma escola particular quando morava em Guarantã do Norte.
Na adolescência, outra paixão apareceu: a astronomia. Weder conquistou por dois anos consecutivos o primeiro lugar de sua cidade na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA). O sonho de trabalhar com o espaço acabou deixado de lado por dificuldades financeiras, mas a busca pelas alturas reapareceria anos depois, nas montanhas.
Primeiros passos nas grandes altitudes
O contato com o montanhismo de altitude ocorreu em 2015, durante uma viagem à Bolívia. Weder tentou chegar ao topo do Chacaltaya, em La Paz, mas precisou desistir por causa dos efeitos do ar rarefeito.
A experiência, entretanto, ficou marcada. Um ano depois, ele retornou ao local e conseguiu completar a subida.
O salto para uma expedição de grande porte aconteceu somente em 2023, quando encontrou nas redes sociais um anúncio de uma empresa brasileira oferecendo uma viagem ao Aconcágua.
Naquele momento, Weder ainda não conhecia a dimensão do projeto dos Sete Cumes. A ideia inicial era fazer uma trilha de mais de 20 dias e cerca de 100 quilômetros em um ambiente completamente diferente de sua rotina.
Foi durante a própria expedição que ele percebeu o tamanho do desafio.
A experiência mais difícil
O Aconcágua, com 6.961 metros de altitude, acabou sendo também a experiência mais traumática de sua trajetória.
Durante a subida, Weder enfrentou forte dificuldade para respirar. No ataque ao cume, sua saturação de oxigênio chegou a 47%. Posteriormente, já de volta a Cuiabá, exames apontaram que seus pulmões estavam 70% comprometidos por uma pneumonia bacteriana.
A situação se tornou ainda mais marcante depois que uma montanhista romena sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu pouco depois de chegar ao cume.
A morte prolongou a permanência do grupo no alto da montanha justamente durante uma mudança nas condições climáticas. Na descida, os montanhistas enfrentaram uma tempestade de neve, visibilidade muito reduzida e frio próximo de -20°C.
De volta ao acampamento, Weder voltou a apresentar dificuldades respiratórias. Sem possibilidade de resgate de helicóptero naquele momento, permaneceu no local e conseguiu estabilizar a saturação antes de iniciar a descida no dia seguinte.
Ainda debilitado, deixou a região um dia antes do restante do grupo e, ao chegar a Cuiabá, procurou atendimento médico.
O episódio também teve consequências emocionais. Depois de presenciar a morte da montanhista e acreditar que poderia morrer, Weder passou por terapia para lidar com o trauma.
Do trauma à segunda conquista
Apesar da experiência no Aconcágua, o advogado decidiu continuar no projeto.
A segunda conquista ocorreu no Monte Elbrus, na Rússia, em 31 de agosto. Com 5.642 metros, a montanha é considerada por Weder a mais alta da Europa dentro da lista dos Sete Cumes.
A expedição apresentou desafios diferentes. O grupo enfrentou chuva em altitudes menores e tempestades de neve nos acampamentos superiores. No dia da conquista, a sensação térmica no cume chegou a -30°C.
Mesmo com as condições adversas, Weder alcançou o topo em aproximadamente três horas e meia. A subida e a descida foram concluídas em 5 horas e 11 minutos.
O tempo aberto durante a chegada ao cume permitiu uma visão de aproximadamente 50 quilômetros, experiência que contrastou com o sofrimento enfrentado no Aconcágua.
Preparação exige resistência
Para enfrentar expedições desse nível, Weder mantém uma rotina de preparação específica. O objetivo não é apenas desenvolver força física, mas principalmente resistência para suportar horas de caminhada carregando equipamentos que podem chegar a cerca de 25 quilos.
A preparação para uma montanha costuma começar pelo menos seis meses antes da expedição.
Segundo ele, a preparação psicológica também é fundamental. Em ambientes de alta montanha, o frio, o cansaço, o isolamento, a altitude e o risco exigem controle emocional para continuar avançando.
Entre a advocacia e as montanhas
A rotina de expedições precisa ser conciliada com a profissão. Weder é advogado em Pontes e Lacerda e também atuou durante dez anos como professor universitário, com passagens pela Unemat e pelo IFMT.
Ele é mestre em Direitos Humanos pela Universidade do Minho, em Portugal, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional pela Universidad de Buenos Aires.
As viagens são planejadas com meses de antecedência. O advogado organiza os compromissos profissionais, prepara o escritório e, quando necessário, solicita alterações em audiências para conseguir participar das expedições.
Cinco montanhas ainda estão pela frente
Com Aconcágua e Elbrus conquistados, Weder ainda precisa enfrentar cinco montanhas para completar o projeto:
• Everest, no Nepal, com 8.848 metros, na Ásia
• Denali, no Alasca, com 6.194 metros, na América do Norte
• Kilimanjaro, na Tanzânia, com 5.895 metros, na África
• Maciço Vinson, na Antártida, com 4.892 metros
• Pirâmide Carstensz ou Puncak Jaya, na Indonésia, com 4.884 metros, na Oceania
O próximo objetivo é o Kilimanjaro, na Tanzânia.
A estratégia adotada por Weder é começar pelas montanhas consideradas menores dentro do projeto e deixar o Everest para uma etapa posterior. A montanha mais alta do mundo é justamente o maior desafio da lista.
Além das escaladas, as expedições também permitem ao advogado conhecer novos países e culturas. Ele afirma já ter visitado 44 países e procura aproveitar as viagens para conhecer a culinária, os costumes e os idiomas de cada lugar.
Para Weder, a trajetória também representa uma forma de levar o nome de Mato Grosso para lugares onde o Estado ainda é pouco conhecido no universo do montanhismo.
Mais do que completar uma lista de montanhas, ele considera que a experiência serve para testar limites e mostrar que objetivos aparentemente distantes podem ser alcançados com preparação, persistência e confiança.

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