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Álcool: A droga que a sociedade ainda se recusa a problematizar
Por por Wanderson Almeida Lima
06/04/2026 - 21:51

Foto: reprodução

 

Não se trata de falta de informação. Os efeitos do álcool sobre a saúde são amplamente conhecidos e documentados. Ainda assim, seu consumo segue não apenas aceito, mas incentivado socialmente. A contradição é evidente — e, ao mesmo tempo, profundamente naturalizada.

O álcool é uma substância psicoativa associada ao desenvolvimento de doenças crônicas, transtornos mentais, acidentes de trânsito e episódios de violência. Esses impactos são reconhecidos por instituições de saúde no mundo todo. No entanto, diferentemente de outras drogas, ocupa um espaço privilegiado: está presente em celebrações, campanhas publicitárias e interações cotidianas, frequentemente associado a prazer, sucesso e pertencimento.

Essa construção cultural não é neutra. Ao reforçar uma imagem positiva do consumo, reduz-se a percepção de risco e dificulta-se um debate público mais honesto. O resultado é um silêncio coletivo sobre consequências reais e, muitas vezes, devastadoras. Famílias desestruturadas, vínculos fragilizados e impactos emocionais duradouros raramente aparecem na narrativa dominante.

Essa realidade, contudo, não é apenas estatística. Como alguém que teve a infância marcada por traumas relacionados ao álcool no ambiente familiar, sei que o que se convencionou chamar de “social” pode significar, na prática, instabilidade e medo. Em muitos lares, o consumo está diretamente ligado a experiências de insegurança e sofrimento — especialmente para crianças e adolescentes. Trata-se, portanto, de uma questão que ultrapassa a esfera individual e se insere, de forma inequívoca, no campo da saúde pública.

O problema não está apenas no consumo, mas na forma como ele é socialmente interpretado. Ao ser tratado como algo trivial, o álcool se torna uma exceção no debate sobre drogas — uma blindagem cultural que dificulta avanços consistentes em prevenção, educação e conscientização.

No contexto do Dia Mundial da Saúde, essa reflexão se impõe. Se promover saúde é garantir bem-estar físico, mental e social, é legítimo questionar por que seguimos normalizando uma substância que compromete esse equilíbrio.

Enfrentar essa contradição exige mais do que informação: exige coragem coletiva para rever hábitos, questionar padrões e romper silêncios.

Porque o que a sociedade insiste em tratar como normal, muitas vezes, já é, há muito tempo, um problema.

*Contador e pós-graduado em Docência, Wanderson Almeida Lima está no último semestre de Psicologia. Dedica-se há 15 anos ao apoio de famílias afetadas pelo alcoolismo na periferia de Cuiabá. Especialista em integrar saberes de gestão e comportamento, busca aplicar essa visão multidisciplinar em temas de saúde mental e bem-estar social. 

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