Diario de Cáceres | Compromisso com a informação
Fiéis relatam milagres e conversão após conviver com padre beatificado em Jauru
Por Lidiane Moraes Lidiane Moraes Editora de Conteúdo Mariana Lenz/Primeira Página
25/06/2026 - 16:21

Foto: reprodução

Quem conviveu com o padre Nazareno Lanciotti, beatificado no último sábado (13), em Jauru (MT), afirma ter tido a vida transformada pelas orientações espirituais deixadas por ele. Entre essas pessoas está o de Keila Cristina Viegas Rocha, hoje com 49 anos.

Mãe de três filhos e moradora de Cuiabá, ela conheceu o padre ainda na adolescência, durante um retiro de carnaval para jovens em Jauru, sob a direção espiritual de Nazareno. Segundo ela, aquele encontro marcou o início de uma mudança profunda em sua vida.

“Foi o meu primeiro encontro com Deus, através do padre Nazareno. Tudo o que ele fazia pelos jovens era muito lindo. A preocupação, o carinho, o amor dele pela juventude e as homilias encantavam a gente”, relembra Keila.

O momento mais marcante, segundo ela, foi uma confissão feita com o sacerdote. Keila conta que chegou nervosa, com receio do padre italiano de voz forte, mas encontrou acolhimento. “Quando eu entrei naquela confissão, eu desabei em lágrimas. Foi realmente a minha conversão. Ali eu pude ver a santidade daquele homem”, afirma.

Desde então, Keila passou a seguir as orientações espirituais ligadas à devoção a Nossa Senhora e ao Movimento Sacerdotal Mariano, do qual o padre Nazareno foi diretor nacional no Brasil. Ela diz que a experiência em Jauru mudou a forma como passou a viver a fé e a construir a própria família.

“Hoje eu tenho minha família, tenho grupo de cenáculos, sou consagrada a Nossa Senhora e vivo uma vida voltada para Jesus. O meu maior milagre foi ter convivido com o padre Nazareno”, pontua.

Para Keila, o legado do sacerdote pode ser resumido no amor à Eucaristia, à Virgem Maria e no cuidado com jovens, crianças e famílias. Ela lembra que, nos retiros, Nazareno incentivava a juventude a buscar uma vida de fé e a encontrar sentido no serviço religioso.

“Ele queria incendiar o mundo com o amor de Cristo e de Nossa Senhora. Tenho certeza de que conseguiu fazer isso, especialmente no meu coração, na minha vida e na minha família”, afirma.

padre

Padre Nazareno Lanciotti é reconhecido como o primeiro beato de Mato Grosso – Foto: Reprodução

Intercessão pela vida

A fé levou a cabeleireira Bernardete Calza da Silva a orar pela vida do afilhado João Miguel Grando, nascido de forma prematura fruto de uma gravidez de risco da cunhada, a dentista Daniela Jacobsen Grando, em Sorriso (MT).

Daniela conta que desde que descobriu a gestação teve sangramentos e chegou a ficar internada várias vezes. A recomendação médica era de repouso absoluto. Contudo, na noite de 3 de abril de 2014 teve uma forte hemorragia e descolamento de placenta.

Naquela madrugada, João Miguel nasceu de apenas 26 semanas, cabia na palma de uma mão, pesando 800 gramas, em um hospital com apenas uma incubadora para passar a noite. No dia seguinte, conseguiu uma vaga na UTI neonatal, onde permaneceu até o dia 20 de abril.

No entanto, os rins do bebê paralisaram e foi transferido para UTI neonatal em São Paulo para fazer diálise. Em um dos períodos mais críticos chegou a pesar 560 gramas.

primeira pagina 2026 06 23T201233.405

João Miguel nasceu prematuro com 800 gramas e problemas cardíacos. – Fotos: Arquivo da família

A madrinha Bernardete lembra dos momentos de aflição que a família passou e da intensa oração pela vida do pequeno. “Eu acendia velas no altarzinho de casa e pedia a intercessão do Padre Nazareno a Deus e Nossa Senhora pela vida do João Miguel, que o padre cuidasse para que ele pudesse viver”, conta.

Devido ao nascimento prematuro, João Miguel passou por diversos procedimentos durante a internação, além de enfrentar três cirurgias: uma para os cateteres para fazer a diálise, outra no coração para fechar um canal arterial, e ainda cirurgia de três hérnias. Todas em um intervalo de apenas três meses.

primeira pagina 2026 06 10T205525.882

Padre Nazareno Lanciotti junto do Papa João Paulo II. – Foto: Arquivo

Em 4 de agosto daquele ano, João Miguel teve alta médica, pesando 2,7 quilos. Dias depois, retornou com os pais para Mato Grosso. “Ele saiu de lá tomando 10 medicações. Depois de seis meses ele tomava três. Após um ano não precisou mais dos remédios”, conta a mãe Daniela.

Hoje, com 12 anos e saudável, sem sequelas físicas ou psicológicas, João Miguel tem a vida celebrada pelos pais, tios e familiares. A beatificação de Nazareno em junho deste ano, fez a família relembrar os momentos de sofrimento e de alívio passados na luta pela sobrevivência de João Miguel.

Fiéis de Mato Grosso relatam conversão, graças alcançadas e mudanças de vida após conviver com o padre Nazareno Lanciotti, beatificado neste mês em Jauru.

A dentista Daniela Grando e o filho João Miguel após recuperação. – Fotos: Arquivo pessoal

Beatificação em Jauru

Padre Nazareno Lanciotti foi beatificado em Jauru, cidade onde viveu por quase 30 anos e onde construiu a maior parte de sua trajetória missionária. O ato foi conduzido pelo cardeal Dom João Braz de Aviz, arcebispo emérito de Brasília, após o cancelamento da viagem ao Brasil do cardeal italiano Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, por motivos de saúde.

A beatificação ocorreu depois que a Igreja Católica reconheceu o martírio do sacerdote. Em abril de 2025, a Santa Sé promulgou o decreto que reconheceu que padre Nazareno foi morto por ódio à fé, em razão de sua atuação pastoral, social e religiosa em Mato Grosso.

Fiéis de Mato Grosso relatam conversão, graças alcançadas e mudanças de vida após conviver com o padre Nazareno Lanciotti, beatificado neste mês em Jauru.

Fiéis reunidos na missa de beatificação de Lanciotti, em Jauru (MT). – Foto: Arquivo pessoal

Alessandra Briante, que acompanhou de perto o processo de beatificação, explica que a Igreja reconheceu o martírio no atentado sofrido pelo sacerdote, em fevereiro de 2001. Ele morreu 11 dias depois de ser baleado.

“A Igreja reconheceu o martírio no assassinato, na tentativa de assassinato do padre Nazareno, que culminou com a morte dele 11 dias depois do atentado. Ele incomodava demais na cidade as coisas fora da lei, como droga e prostituição”, relata Alessandra.

Segundo ela, o sacerdote não era bem visto por todos justamente por combater práticas criminosas e por defender a fé e a dignidade da população mais vulnerável.

“Ele realizou muitas obras sociais, no atendimento às crianças, na saúde, na escola, no asilo e no hospital. Onde ele passava, fazia com que o plano de Deus fosse realizado segundo as regras da Igreja”, afirma.

Processo envolveu fiéis e equipes de várias cidades

Alessandra participou da secretaria executiva criada pela Diocese de São Luiz de Cáceres para organizar a causa de beatificação. Segundo ela, o trabalho ganhou força após o reconhecimento do martírio pelo Papa Francisco, quando a data da celebração passou a ser aguardada com mais expectativa.

A comissão foi organizada em equipes de finanças, arquivo e documentação, liturgia, comunicação, eventos e logística. Alessandra e o marido, Reginaldo, ficaram responsáveis pela parte de eventos e logística.

“Desde meados do ano passado até quase a véspera da beatificação, a gente se reunia quase quinzenalmente. Tivemos muita dificuldade, principalmente por conta dos recursos”, conta.

De acordo com Alessandra, a realização da cerimônia envolveu voluntários de Jauru e de outras cidades da região, como São José dos Quatro Marcos, Araputanga, Cáceres e Cuiabá. Ao todo, cerca de 350 servos atuaram no dia da beatificação, divididos em 14 equipes.

“Foi um processo que ninguém realizou sozinho. Contamos com muitas pessoas para fazer acontecer esse evento”, diz.

A preparação também incluiu a visita do postulador da causa ao Brasil, no fim de novembro, para orientar detalhes da celebração, acompanhar o reconhecimento do corpo e a retirada de relíquias, que foram apresentadas durante a cerimônia e serão distribuídas conforme decisão da Diocese de Cáceres.

Quem foi padre Nazareno Lanciotti

Nazareno Lanciotti nasceu em 3 de março de 1940, na Itália. Filho do pedreiro Giacomo Lanciotti e da dona de casa Antonietta, foi ordenado sacerdote em 1966 e iniciou o ministério em Roma. Em 1971, veio ao Brasil como missionário e passou alguns meses em Poxoréu, em Mato Grosso.

Em janeiro de 1972, mudou-se para Jauru, região de fronteira com a Bolívia. Na cidade, fundou a Paróquia Nossa Senhora do Pilar e organizou um apostolado missionário com forte devoção à Virgem Maria.

Ao longo dos anos, criou 57 comunidades eclesiais rurais com adoração eucarística diária, liderou a construção de um hospital com 50 leitos, fundou a casa de repouso para idosos Coração Imaculado de Maria, abriu uma escola para centenas de crianças e instituiu um seminário menor.

Em 1987, ingressou no Movimento Sacerdotal Mariano e foi nomeado diretor nacional no Brasil. A partir daí, passou a organizar encontros de oração e consagração ao Imaculado Coração de Maria, além de acompanhar o padre Stefano Gobbi, fundador do movimento.

A atuação do sacerdote também chamou atenção fora do ambiente religioso. Documento obtido pelo Primeira Página junto ao Arquivo Nacional mostra que Nazareno chegou a ser monitorado durante a Ditadura Militar. Relatórios da época citam o padre em listas de religiosos italianos ligados a movimentos populares e o descrevem como administrador do hospital filantrópico de Jauru e do seminário local.

Um dos documentos afirma que ele era considerado “muito ativo e trabalhador” e que havia tomado partido de posseiros em conflitos agrários.

Atentado e morte

Na noite de 11 de fevereiro de 2001, padre Nazareno foi baleado na nuca durante uma invasão à Casa Paroquial da Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Jauru. Ele jantava com amigos quando dois homens encapuzados entraram no local e exigiram que abrisse um suposto cofre da igreja.

O sacerdote afirmou que a paróquia não tinha cofre. Segundo relatos da época, os criminosos fizeram roleta-russa com os amigos do padre, mas não levaram o dinheiro que estava com as vítimas. Antes do disparo, um dos homens teria dito: “eu sou o demônio e você nos incomoda muito”.

Nazareno foi levado para Cuiabá e depois transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Ele morreu no dia 22 de fevereiro de 2001, aos 61 anos.

O corpo foi levado para Cáceres e, em seguida, para Jauru, onde foi velado na quadra da Paróquia Nossa Senhora do Pilar. O funeral reuniu milhares de fiéis de várias regiões de Mato Grosso.

tumulo de lanciotti

Dois homens apontados como executores do crime foram presos um ano depois, mas os supostos mandantes nunca foram identificados ou presos. Embora o caso tenha sido tratado inicialmente como latrocínio, moradores e fiéis sempre defenderam que a morte teve motivação política e religiosa, já que nada foi roubado.

Mais de duas décadas depois, a memória do sacerdote segue viva entre os fiéis. Para quem conviveu com ele, como Keila, a beatificação apenas confirmou aquilo que muitos já carregavam no coração.

“A gente não sabia, não imaginava, mas lá no fundo tinha uma certeza de que ele realmente era santo. Que o nosso querido Beato Padre Nazareno Lanciotti seja lembrado pelo mundo inteiro”, afirma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carregando comentarios...