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Antes do Daveron, uma longa história já existia
Por cnmcanalnoticiasmt.com
27/06/2026 - 20:28

Foto: reprodução

A região da Baía do Malheiros e das proximidades de Vila Maria do Paraguai, onde José Jorge da Cunha viveu as últimas décadas de sua vida até seu falecimento, em 1930, antes da chegada dos portugueses e africanos, era território tradicional de diversos grupos indígenas.

(reprodução) - No século XIX e no século XX, as principais etnias presentes ou que circulavam por aquela área eram:

Guató: conhecidos como os “índios canoeiros”, são os habitantes ancestrais do Pantanal e da região da Baía do Malheiros. Dominavam a navegação e viviam quase exclusivamente nos rios e baías, sendo o grupo mais presente na dinâmica fluvial daquela localidade.

Chiquitano: grupo que historicamente transitava na fronteira entre Brasil e Bolívia. Muitos se fixaram em comunidades próximas a Cáceres ao longo do século XX, fugindo de conflitos ou em busca de trabalho nas fazendas.

Bororo: embora seu território principal estivesse localizado mais a leste e ao norte, na região do Rio São Lourenço, grupos bororos frequentavam e mantinham aldeamentos na região do Alto Paraguai e nas proximidades de Cáceres durante o século XIX.

Mas a ocupação é ainda mais antiga

(reprodução) - Conforme o livro Cruzeiro D’Oeste – Nos Tempos de Glória, de Claudomiro Savoine, pesquisas arqueológicas indicam que presença humana no Centro-Oeste brasileiro, incluindo os vales dos rios Paraguai, Jauru e Guaporé, remonta ao final do Pleistoceno e início do Holoceno, há aproximadamente 10 a 12 mil anos. Nas margens dos rios Paraguai e Jauru, há evidências de grandes aldeias de povos que fabricavam potes, jarros, panelas e urnas, praticavam agricultura e, anteriormente, eram caçadores e coletores que habitavam abrigos e grutas, como a encontrada em Glória D’Oeste-MT.

Cruzeiro D’Oeste foi, historicamente, a primeira identidade de Glória D’Oeste, região vinculada a Cáceres desde os tempos mais remotos.

José Jorge da Cunha, filho de Salvador Jorge da Cunha e de Dona Constantina Ribeiro Jorge, teve sete irmãos: Salvador J. da Cunha, Lino J. da Cunha, Adolpho J. da Cunha, Estephania J. da Cunha, Generosa, Cristina e Elisa Jorge da Cunha.

O desbravador e industrial, nascido em 4 de maio de 1857, José Jorge da Cunha foi casado com Dona Benedita Dias de Oliveira, com quem teve dez filhos: Georgina, João Jorge, Ercília, Ana, Salvador, Montezuma, Nailo, Juvenal, Luís e Arnaldo Jorge da Cunha.

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(foto reprodução) - Como segundo ocupante e proprietário da área atualmente denominada “Daveron”, construiu edificações que permanecem até os dias atuais. O local servia para armazenar aguardente, poaia (Ipecacuanha), conhecida como “ouro negro”, pranchas de madeira e cereais, trazidos de sua propriedade denominada Fazenda Cachoeira, localizada às margens do Rio Jauru, a cerca de 90 quilômetros de distância, próxima ao atual município de Glória D’Oeste, área que anteriormente pertencia ao município de Cáceres. O livro Ocorrências nos Verdes Pantanais, de autoria do Dr. Henio Maldonado, destaca que José Jorge da Cunha foi um dos cacerenses que mais contribuíram para o desenvolvimento de Cáceres durante os períodos do Império e da República. Já a obra As Origens de Jorge da Cunha, Villas Boas e Comentários, de autoria de Adolpho J. da Cunha, também contribui para a compreensão de parte da história que não foi amplamente divulgada até os dias atuais.

(foto reprodução) - Naquela época, os registros imobiliários eram realizados em livros de transcrição, sistema distinto das matrículas individualizadas utilizadas atualmente.

Nesse contexto, a certidão referente ao Registro nº 2.971, Livro 3-C, fls. 52, do Cartório do 1º Ofício da Comarca de Cáceres-MT, lavrada originalmente em 23 de abril de 1958, demonstra que Arnaldo Jorge da Cunha recebeu, por meio de inventário e partilha decorrentes do falecimento de José Jorge da Cunha, tanto o imóvel urbano situado na Rua Riachuelo nº 01, em Cáceres-MT, quanto direitos sobre áreas rurais localizadas em duas antigas sesmarias denominadas “Vaca Morta” e “Pantanal”.

O termo “sesmaria” era utilizado para designar grandes extensões de terras concedidas pelo poder público durante os períodos colonial e imperial. Assim, a certidão evidencia que o proprietário possuía participação em duas regiões rurais distintas, denominadas “Vaca Morta” e “Pantanal”, além da titularidade do imóvel urbano localizado na Rua Riachuelo nº 01.

(reprodução) - Todavia, embora o registro mencione terras situadas em ambas as sesmarias, isso não significa necessariamente que existisse uma única fazenda abrangendo simultaneamente as duas áreas. O documento demonstra, na realidade, que o proprietário detinha participação em terras localizadas em cada uma dessas sesmarias, sendo tais direitos reunidos em um mesmo registro imobiliário em razão da titularidade comum. À época, era frequente que os cartórios agrupassem, em um único assento, diversos bens pertencentes à mesma pessoa, especialmente em situações envolvendo inventário e partilha, ainda mais quando se tratava apenas de “partes ideais”, sem delimitação individualizada. Nesse sentido, a expressão “parte ideal” indica que não havia divisão específica e individualizada do imóvel rural ou urbano, mas apenas uma fração pertencente ao proprietário dentro de uma área maior compartilhada com outros coproprietários ou herdeiros.

Dessa forma, não se trata necessariamentede uma única propriedade contínua abrangendo as duas sesmarias, mas da existência de direitos imobiliários distintos vinculados a ambas as regiões, reunidos em um mesmo registro em razão da titularidade comum. Por fim, consta averbação informando que o

imóvel urbano situado na Rua Riachuelo nº 01 foi posteriormente vendido a Alexander Daveron, demonstrando alteração posterior da titularidade do bem registrado sob a transcrição nº 2.971. Pela leitura da certidão, quem aparece como titular originário dos bens é José Jorge da Cunha e, após seu falecimento, os direitos foram transmitidos a Arnaldo Jorge da Cunha por meio de inventário e partilha.

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Assim, José Jorge da Cunha possuía direitos sobre:

  1. O imóvel urbano localizado na Rua Riachuelo nº 01, em Cáceres-MT;
  2. Uma parte ideal de terras na sesmaria “Vaca Morta”;
  3. Uma parte ideal de terras na sesmaria “Pantanal”.

Após seu falecimento, esses bens passaram para Arnaldo Jorge da Cunha.

O mais importante é compreender que, nas áreas rurais, José Jorge da Cunha aparentemente não era proprietário exclusivo de uma fazenda totalmente delimitada, mas sim titular de “partes ideais”, isto é, quotas ou frações dentro de áreas maiores compartilhadas com outros coproprietários ou herdeiros. Já em relação ao imóvel urbano da Rua Riachuelo nº 01, o registro indica uma titularidade mais individualizada, tanto que posteriormente houve averbação da venda desse imóvel para Alexander Daveron.

Importante destacar, ainda, que essas sesmarias não faziam divisa com a Casa Daveron, podendo inclusive estar localizadas a grande distância do imóvel. Na prática, o cartório apenas realizou um compilado de todos os bens que José Jorge da Cunha possuía à época.

Alexander Solon Daveron (1899–1987) foi um médico, cientista e explorador norte-americano que se estabeleceu em Cáceres, Mato Grosso, tornando-se uma figura histórica local após chegar à região em 1930, por meio da Mato Grosso Expedition. Nascido em Oakland, Califórnia, formou-se pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1922, tendo trabalhado na Costa Rica antes de vir ao Brasil. Ao chegar, decidiu fixar residência em Cáceres, onde vive por mais de cinquenta anos, dedicando-se ao estudo de doenças tropicais, ao contato com populações indígenas e à documentação da fauna local por meio de cartas e fotografias. Sua antiga residência, conhecida como “Chácara do Daveron”, foi adquirida pela Prefeitura de Cáceres em 1997, na gestão do prefeito Aloísio Coelho de Barros. Situada próxima à Praia do Daveron, local que se tornou palco do Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPE), atualmente abriga a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura.

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A compra pela Prefeitura ocorreu dez anos após sua morte, sendo o imóvel vendido por seus familiares.

O imóvel foi adquirido com os seguintes objetivos:

  • instalação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMATUR);
  • valorização histórica e turística do espaço;
  • preservação do patrimônio público;
  • utilização em benefício da comunidade.

A localização privilegiada às margens do Rio Paraguai tornou o local ideal para o desenvolvimento do turismo e para a realização de eventos.

Hoje, o espaço continua sendo um dos principais pontos turísticos de Cáceres, mantendo viva a memória do cientista que viveu ali por décadas.

Segundo o vereador Franco Valério, bisneto de José Jorge da Cunha e de Benedicta Oliveira Jorge, e tataraneto de Salvador Jorge da Cunha — reconhecido como um dos cinco primeiros vereadores de Cáceres no período imperial, em 1859 —, a valorização da história de Cáceres não pode ficar restrita apenas à memória oral ou a registros dispersos, sendo necessário transformar esse conhecimento em política pública permanente e acessível à população.

Nesse sentido, o parlamentar relembra que já é autor de uma iniciativa legislativa voltada exatamente para esse objetivo: a Lei nº 3.351, de 23 de julho de 2025, denominada “Lei Airton dos Reis Júnior”, proposta no âmbito da Câmara Municipal de Cáceres, que dispõe sobre a instalação de placas informativas em espaços públicos do município.

A proposta estabelece que obeliscos, prédios públicos e locais que levam nomes de personalidades ou datas históricas passem a contar com identificação adequada, contendo informações claras, objetivas e acessíveis à população, destacando a importância histórica, cultural e social desses espaços.

De acordo com o texto da lei, as placas devem ser instaladas em locais de fácil visualização, preferencialmente nas entradas principais, garantindo que moradores e visitantes tenham acesso à história do município de forma direta e educativa.

A iniciativa também prevê que a implementação ocorra de forma gradual, respeitando a disponibilidade orçamentária da administração municipal, mas com planejamento e critérios técnicos definidos pelo Poder Executivo.

Para o vereador, a aplicação da Lei nº 3.351/2025 dialoga diretamente com a discussão sobre o “Daveron”, já que locais como esse carregam múltiplas camadas históricas: desde os povos originários que habitavam a região há mais de 10 mil anos, documentados por obras como Cruzeiro D’Oeste – Nos Tempos de Glória, passando pela presença de José Jorge da Cunha e sua ligação com a região de Glória D’Oeste, até a consolidação do nome ligado a Alexander Solon Daveron.

“Quando falamos de história, não é apenas lembrar; é explicar, e explicar com base em fatos. A cidade precisa contar sua própria história de forma correta, acessível e permanente”, destacou o parlamentar.

Nesse contexto, o pedido já encaminhado à Prefeitura de Cáceres para a instalação de placas informativas em prédios públicos, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, encontra respaldo direto na legislação, reforçando a necessidade de institucionalizar a memória histórica do município.

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A história é a nossa defesa e precisa ser justa, verdadeira e fundamentada.

“Alguns são lembrados, outros não. O importante é que cada um tem a sua história; para o universo, isso é o que importa.”

Colaboradores: Orlando do Couto, Henio Maldonado (in memoriam), Maria de Lourdes Fanaia, Adolpho Jorge da Cunha (in memoriam), Claudomiro Savoine e Franco Valério Cebalho da Cunha.

 

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