Quando projetos pessoais valem mais que a representatividade, a cidade inteira paga a conta.
Cáceres parece empenhada em repetir um dos erros mais primários da política: confundir quantidade de candidatos com força eleitoral. Numa disputa em que concentração territorial de votos tem enorme importância, lançar muitos nomes a Deputado Estadual não fortalece o município. Pulveriza votos, enfraquece quem realmente tem possibilidade de eleição e ajuda candidatos de fora.
O direito de disputar uma eleição é democrático. Mas democracia não pode servir de biombo para projetos pessoais, vaidades, interesses menores ou até não republicanos. O que está em jogo é maior que qualquer candidatura: Cáceres precisa recuperar representação efetiva na Assembleia Legislativa do Estado.
Política exige cálculo, renúncia, espírito público e prioridade. Quem realmente coloca o município acima do próprio nome deveria responder: minha candidatura aumenta ou diminui a possibilidade de Cáceres eleger um deputado?
Essa pergunta deveria ser feita por candidatos, partidos, vereadores, empresários, entidades e também pela maior liderança política local, a prefeita Eliene Liberato, que defende e, escancaradamente, pede votos para candidatos de fora do município, em detrimento aos locais.
Depois das eleições, se ninguém for eleito, será fácil lamentar. Difícil será admitir que a derrota pode ter sido construída dentro da própria cidade por lideranças que poderiam ter trabalhado pela concentração de forças.
Enquanto municípios politicamente organizados buscam ampliar sua representação, Cáceres pulveriza seu patrimônio eleitoral. E voto é patrimônio político. Cada voto destinado a uma candidatura sem possibilidade concreta de eleição poderá fazer falta ao nome que efetivamente tenha condições de romper anos de ausência de representação.
Não se trata simplesmente de defender “voto útil”. Trata-se de estratégia municipal e regional. Uma cidade que pretende recuperar protagonismo precisa estabelecer prioridades. Não é possível transformar cada desejo pessoal em candidatura e depois responsabilizar Cuiabá pelo isolamento político da região.
O mais grave é que Cáceres tem possibilidade real de voltar à Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Desperdiçar essa oportunidade por vaidade, interesses partidários ou incapacidade de construir unidade será irresponsabilidade política com o futuro do município.
Se Cáceres novamente ficar sem deputado estadual pela fragmentação dos próprios votos, a responsabilidade estará também entre aqueles que preferiram preservar suas candidaturas em vez de priorizar a representatividade da cidade. Quem divide uma força eleitoral já limitada não fortalece Cáceres: ajuda a eleger candidatos de fora.
São apenas 24 vagas para deputado estadual diante de 258 candidatos em Mato Grosso. Numa disputa desse tamanho, chega a ser constrangedora a falta de autocrítica de candidaturas que sabem não possuir condições reais de eleição, mas insistem em permanecer no jogo.
Se Cáceres estivesse realmente acima dos projetos pessoais, algumas candidaturas sequer existiriam. Mas ainda há tempo para um gesto político de grandeza: renunciar em favor da representatividade do município. A pergunta final é simples e incômoda: quem terá coragem de colocar Cáceres acima do próprio nome?