Às margens do rio Paraguai e na fronteira com a Bolívia, município tem maior rebanho bovino de Mato Grosso
Pense numa cidade tão identificada com o rio Paraguai e com a pesca que uma das maneiras mais carinhosas de seu povo se dirigir a alguém é chamando-o de “meu peixe”. Esse lugar é Cáceres, que nesta terça-feira, 6 de outubro, comemora 248 anos de fundação.
Com 91.909 habitantes, às margens do Paraguai e na fronteira com a Bolívia, Cáceres reúne características que ajudam a explicar sua importância histórica e econômica para Mato Grosso. É porta de entrada do Pantanal, sede da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), palco do Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPe) e abriga uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), uma das principais apostas para uma nova etapa de industrialização.
Sua localização também ganha importância diante dos projetos de integração sul-americana. O município está no extremo Norte da Hidrovia Paraná-Paraguai e ocupa posição estratégica em relação ao futuro Corredor Bioceânico, concebido para aproximar Mato Grosso dos portos do Pacífico.

Rio Paraguai, em Cáceres
Cáceres é um cartão-postal em movimento. Na região, as águas dos rios Cabaçal e Sepotuba encontram o Paraguai, compondo uma paisagem que faz do turismo uma das atividades econômicas do município.
É a pecuária, porém, que sustenta boa parte da economia. Pelas invernadas, confinamentos e campos naturais do Pantanal espalha-se um rebanho estimado em 1,4 milhão de bovinos, o maior de Mato Grosso.
CAPITAL DA PESCA - É no rio Paraguai que ocorre anualmente um dos eventos que mais projetam Cáceres nacional e internacionalmente: o Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPe).
A competição de pesca embarcada já teve seu gigantismo reconhecido pelo Guinness Book e se transformou em símbolo da relação entre a cidade, o rio e a atividade pesqueira.
Essa ligação está também incorporada à paisagem urbana. Ruas antigas, estreitas, sinuosas e planas, cercadas por casarões que preservam fragmentos da história cacerense, testemunharam durante décadas um intenso movimento de bicicletas. Não por acaso, Cáceres ganhou o apelido de “Paraíso das Bicicletas”.
O patrimônio natural e histórico convive, entretanto, com antigos problemas urbanos.
O município ainda não conseguiu universalizar o abastecimento de água e apresenta grave deficiência no tratamento de esgoto, com impactos diretos sobre o rio Paraguai.
FRONTEIRA E CRIME - A posição geográfica que oferece oportunidades econômicas também impõe desafios à segurança pública.
Na fronteira com a Bolívia, Cáceres está numa região utilizada pelas organizações criminosas para o tráfico internacional de drogas. A atuação de facções e de grupos ligados ao narcotráfico permanece entre os principais problemas enfrentados pelo município.
Uma das faces desse fenômeno aparece no sistema prisional. Mulheres bolivianas são frequentemente presas na região acusadas de transportar cocaína através da fronteira. Conhecidas como “mulas”, são recrutadas por organizações criminosas para levar a droga escondida em bagagens, roupas ou até ingerida em cápsulas.
O enfrentamento ao crime transnacional tornou-se, assim, tão estratégico para Cáceres quanto o desenvolvimento econômico da faixa de fronteira.
ZPE E FREE SHOP - É justamente na economia que o município deposita algumas de suas maiores expectativas para os próximos anos.
A Zona de Processamento de Exportação de Cáceres, batizada de Engenheiro Adilson Reis, em homenagem a um dos principais defensores de sua implantação, começa a ensaiar os primeiros passos para receber empreendimentos industriais.
A expectativa é utilizar a localização estratégica para estimular a industrialização e a exportação de produtos para mercados da América do Sul e da Ásia.
Outro movimento está previsto para este mês. No próximo dia 19 de outubro, Cáceres deverá inaugurar o primeiro free shop terrestre de Mato Grosso.
O estabelecimento permitirá compras de até US$ 500 por CPF a cada período de 30 dias e terá 12 segmentos de produtos, entre perfumes, cosméticos, bebidas importadas, roupas, calçados, eletrônicos, alimentos, relógios, óculos, suplementos e artigos de pesca.
DE OLHO NO PACÍFICO - Cáceres está ao lado da Bolívia, mas historicamente manteve uma integração econômica aquém do potencial proporcionado pela fronteira. Esse quadro poderá mudar com a consolidação de novas rotas rodoviárias.
A expectativa está concentrada principalmente no avanço da pavimentação em direção à fronteira pela região de Vila Bela da Santíssima Trindade e na estruturação do Corredor Bioceânico, ligando Mato Grosso ao Oceano Pacífico através do território boliviano.
Para que a ligação seja integralmente pavimentada, porém, também serão necessárias obras na Bolívia. A rota projetada permitiria alcançar Arica, no Chile, além de outros portos chilenos e do Sul do Peru.
A integração abriria uma alternativa logística para Mato Grosso chegar aos mercados asiáticos pelo Pacífico.
NASCIDA PARA OCUPAR A FRONTEIRA - A posição estratégica de Cáceres não é uma descoberta recente.
A cidade foi fundada em 6 de outubro de 1778 pelo governador da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, dentro da política de ocupação e defesa da fronteira portuguesa.
Durante cerca de dois séculos, o rio Paraguai foi praticamente a principal via de acesso à cidade. Por suas águas circulavam passageiros e mercadorias, e Cáceres mantinha atividades comerciais baseadas, entre outros produtos, em charque, cachaça, poaia e madeira.
O isolamento ficou para trás. Hoje, o município está ligado por rodovia a Cuiabá e Porto Velho (RO), além de exercer influência sobre uma extensa rede de cidades do Oeste de Mato Grosso.
Cáceres também dispõe do Aeroporto Comandante Nelson Dantas, com pista pavimentada, embora sem voos comerciais regulares e sem operação noturna.
POLO REGIONAL - A expansão da ocupação territorial transformou Cáceres em referência para dezenas de municípios que surgiram a partir dos processos de colonização do Oeste mato-grossense.
Curvelândia, Lambari D'Oeste, Rio Branco, Salto do Céu, Glória D'Oeste, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda, Conquista D'Oeste, Nova Lacerda, Comodoro, Campos de Júlio, Mirassol D'Oeste, São José dos Quatro Marcos, Araputanga, Reserva do Cabaçal, Indiavaí, Figueirópolis D'Oeste, Jauru e Vale de São Domingos estão entre as cidades que integram essa região historicamente vinculada a Cáceres.
Mesmo com o fortalecimento econômico desses municípios, permanece intensa a relação comercial e de prestação de serviços com a antiga cidade-mãe.
Na saúde, Cáceres exerce papel regional por meio do Hospital Regional Dr. Antônio Fontes, que também mantém ligação com a formação universitária da Unemat.
Aos 248 anos, a cidade fundada para assegurar a ocupação da fronteira continua convivendo com sua vocação histórica. Só que agora a fronteira que antes precisava ser defendida também é vista como caminho para integração.
Entre o Pantanal, o rio Paraguai, a pecuária, a ZPE e a futura ligação com o Pacífico, Cáceres busca transformar sua localização geográfica em desenvolvimento sem perder a identidade construída em torno de suas águas. Afinal, poucas cidades podem dizer com tanta naturalidade a moradores e visitantes: “Meu peixe!”.