Pesquisa lança luz sobre um grave problema de saúde pública: o abandono do tratamento de doenças como tuberculose, hanseníase, leishmaniose tegumentar e hepatite B.
Os principais resultados do estudo “Aspectos sociodemográficos, ambientais e clínico-epidemiológicos do abandono ao tratamento de doenças de determinação social em Mato Grosso”, realizado pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), foram apresentados à Superintendência de Vigilância em Saúde (SUVSA/SES-MT), nesta semana (18.08).
PRINCIPAIS DADOS
Entre os anos de 2007 e 2022, os registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostraram que mais de 10% dos pacientes com tuberculose e hanseníase interromperam seus tratamentos antes do fim.
A tuberculose apresentou 10,39% de abandono, com tendência crescente de cerca de 6,6% ao ano, enquanto a hanseníase atingiu 10,60%, também em alta. Já a leishmaniose tegumentar manteve índices mais baixos (1,64%) e estáveis, enquanto a hepatite B, avaliada entre 2021 e 2023, apresentou taxa de 2,93%.
“O estudo ainda revelou os municípios que concentram maiores índices de abandono, destacando áreas prioritárias para diálogo sobre a organização da rede de atenção, o que exige medidas específicas de vigilância e cuidado”, explicou o professor da Unemat, Josué Souza Gleriano.
RECOMENDAÇÕES
A pesquisa não se limitou ao diagnóstico e apresentou recomendações práticas à SUVSA/SES-MT e aos gestores municipais. Entre as principais:
Foco nas populações mais vulneráveis, como pessoas em idade produtiva (principalmente adultos entre 20 e 59 anos), população preta e parda, indivíduos com baixa escolaridade, coinfectados por HIV e usuários de álcool.
Integração entre setores de saúde, com troca de informações entre vigilância epidemiológica e serviços de atenção primária à saúde para garantir acompanhamento contínuo.
Acolhimento humanizado, com ligações, mensagens ou visitas que entendam os motivos do abandono sem punições ou burocracias.
Uso da tecnologia a favor do paciente, como telemonitoramento e lembretes por aplicativos de mensagens.
Campanhas educativas e parcerias comunitárias, envolvendo líderes locais, escolas, igrejas e grupos sociais para combater estigmas e estimular a adesão.
Maior acesso a medicamentos e novas terapias, garantindo que tratamentos mais eficazes cheguem às regiões mais distantes.
SOBRE A PESQUISA
O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (DECIT/MS), sob a Chamada Pública nº 21/2023, e coordenado pela professora Dra. Letícia Silveira Goulart (UFR). A equipe reuniu docentes pesquisadores e estudantes da UFR e Unemat.
Segundo a coordenadora, os achados subsidiam o fortalecimento das políticas estaduais de saúde e podem orientar decisões estratégicas da SES-MT para reduzir o abandono terapêutico e garantir maior controle dessas doenças.
“Nosso compromisso é transformar evidências científicas em políticas concretas. Esses resultados indicam que a integração entre universidades, gestores e serviços de saúde é essencial para reduzir desigualdades e fortalecer o SUS em Mato Grosso”, destacou a coordenadora do estudo, Letícia Goulart (UFR).