Mais de duas décadas de convivência, viagens missionárias, histórias inéditas e a certeza de que conheceu um santo. É assim que o escritor Otávio Piva resume sua relação com o agora beato Padre Nazareno Lanciotti, missionário italiano assassinado em Jauru (MT), em 2001, e beatificado pela Igreja Católica em 13 de junho deste ano. Responsável pela biografia do sacerdote, Piva afirma que a obra reúne não apenas fatos históricos, mas também suas experiências pessoais ao lado daquele que considera um dos maiores exemplos de santidade dos tempos atuais. A biografia tem previsão de lançamento para outubro.
Nazareno Lanciotti nasceu em Roma, em 1940, chegou ao Brasil em 1971 e, no ano seguinte, fixou-se em Jauru, onde fundou a Paróquia Nossa Senhora do Pilar e desenvolveu um intenso trabalho pastoral e social. Além da evangelização, criou escolas, hospital, asilo, seminário e combateu o tráfico de drogas, a prostituição e a exploração de menores. A atuação incomodou grupos criminosos e culminou no atentado sofrido em 11 de fevereiro de 2001. Ele morreu 11 dias depois. Em abril de 2025, a Igreja reconheceu oficialmente seu martírio, e a beatificação ocorreu em junho de 2026, tornando-se a primeira realizada em Mato Grosso. Há 25 anos de sua morte, nenhum criminoso foi condenado ou o fato esclarecido.
Otávio Piva conta que conheceu padre Nazareno entre 1983 e 1984, durante o trabalho desenvolvido no Centro de Medjugorje, e que a amizade se fortaleceu dentro do Movimento Sacerdotal Mariano. Segundo ele, o próprio fundador do movimento, padre Stefano Gobbi, nomeou Nazareno como responsável pelos sacerdotes no Brasil e o designou como responsável leigo nacional pela difusão dos cenáculos de oração.
"Acompanhei o padre Nazareno por vinte e três anos. O padre Gobbi nomeou o padre Nazareno responsável pelo Movimento Sacerdotal Mariano no Brasil e eu, junto com ele, como responsável leigo. Desde então, dediquei minha vida à difusão dos livros e dos cenáculos", relatou.
"Ele era um modelo de santidade"
Piva descreve Padre Nazareno como um sacerdote totalmente dedicado ao povo e à missão evangelizadora.
Reprodução/@beatonazarenolanciotti

"Na biografia, procurei colocar toda a minha experiência pessoal e vivência daquilo que ele fez. Ele foi um modelo de santidade. Eu nunca conheci um padre que fizesse o que ele fazia. Confessava oitenta, cem pessoas por dia, ia às comunidades a cavalo, celebrava missa, fazia batizados, funerais, casamentos e crismas quando o bispo não podia ir", afirmou.
Segundo o escritor, o sacerdote percorria dezenas de comunidades rurais, muitas vezes enfrentando horas de viagem para atender os fiéis.
"Ele foi um modelo de bom pastor. Cuidou das suas ovelhas como Jesus. O padre Nazareno foi o bom pastor que cuidou de todas as suas ovelhas", declarou.
Convivência de mais de duas décadas
Piva afirma que sua família também conviveu intensamente com o sacerdote.
"Praticamente convivi com o padre Nazareno desde 1984 até o falecimento dele. Meus filhos passavam o mês de dezembro inteiro em Jauru. A única condição era participar da missa todos os dias. Eles tiveram uma formação pessoal extraordinária", contou.
O amigo pessoal do religioso recorda ainda que o padre trabalhava praticamente sem descanso.
"Ele ia dormir à meia-noite e acordava às quatro da manhã. Trabalhava e rezava, trabalhava e rezava. Deu a vida mesmo. Trabalhava por cinco padres. Cada dia estava em uma comunidade diferente", disse.
O atentado e o perdão ao assassino
Um dos relatos mais marcantes do escritor diz respeito aos últimos dias de vida de padre Nazareno, baleado dentro da própria casa.
Piva acompanhou sua transferência para São Paulo e esteve ao lado do sacerdote no hospital.
"Perguntei: 'Você perdoou o matador?'. E ele respondeu: 'Perdoei. Jesus ensina: perdoai os vossos inimigos'", relembrou.
Segundo ele, na mesma conversa perguntou se o padre via Nossa Senhora.
"Ele respondeu: 'Vejo Nossa Senhora'. Para mim, foi a confirmação de que ela veio prepará-lo para o céu", afirmou.
"Ele incomodava muito o mal"
Na avaliação de Piva, o assassinato foi consequência direta da atuação pastoral de Nazareno.
"Ele foi fidelíssimo e esta foi a razão da sua morte. Incomodou muito o mal. Não conseguiam colocar casas de prostituição e casas de baile em Jauru. Ele cuidava dos jovens, das famílias e realmente deu tudo o que tinha", declarou.
Segundo o escritor, o sacerdote permanecia até a madrugada acompanhando jovens para afastá-los da violência e das drogas.
"O legado dele é a santidade, o amor a Jesus Eucarístico e uma grande devoção a Nossa Senhora", resumiu.
Beatificação considerada rápida
Otávio acredita que o reconhecimento da Igreja aconteceu em tempo relativamente curto diante da história da instituição.
"Podemos dizer que foi uma beatificação muito rápida. Em geral, beatificações e canonizações levam muitos anos. A dele foi rápida porque ele é um santo dos tempos atuais", afirmou.
Ele contou que, durante a peregrinação realizada para a cerimônia, ouviu de diversos sacerdotes um testemunho que o marcou.
"Os padres disseram: 'Olhando a vida do Padre Nazareno, nós estamos revendo o nosso sacerdócio. Precisamos ser mais santos'. Essa é a lição que ele deixa para todos nós."
Livro ganhou novo capítulo
A beatificação também alterou os planos da publicação da biografia.
Segundo Piva, o livro estava praticamente concluído, mas precisou ser atualizado para incluir todo o processo vivido pela Igreja até a proclamação do novo beato.
"O livro já estava escrito. Faltava apenas um capítulo: a beatificação. Vou contar tudo o que vivi, todas as experiências desse momento", explicou.
Sua expectativa é que a obra ajude novas gerações a conhecerem o legado do sacerdote.
"Espero que todos que possam ler esse livro sigam o caminho do Padre Nazareno. Ele não chegou à glória de Deus com as mãos vazias. Chegou com numerosas almas salvas por meio do apostolado dele", concluiu.
O lançamento da biografia está previsto para outubro, sem data definida ainda.