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Transpantaneira entra na era do superturismo e, sem regras, amplia a “caça” turística às onças-pintadas
Por Edilson Almeida/RDM
23/07/2026 - 14:43

Crescimento desordenado da visitação pressiona a fauna e aumenta o risco a fauna da região — Foto: National

O turismo de observação transformou a Transpantaneira em uma das principais vitrines internacionais do Pantanal. E não é de hoje. A expansão ocorreu, porém, sem que regras, fiscalização e infraestrutura acompanhassem o crescimento do número de visitantes. O resultado é uma espécie de “caça” turística às onças-pintadas, agora perseguidas por barcos, veículos, câmeras e celulares em busca do melhor flagrante.

A  disputa entre turistas, guias e operadores para localizar e se aproximar das onças se tornou intensa atividade na região em um nicho que pode ser medido pelo acumulo de dólares. A concentração de embarcações, veículos e visitantes em determinados pontos começa a preocupar autoridades ambientais e especialistas.

O alerta ganhou força durante uma visita técnica promovida pelo Ministério Público de Mato Grosso à Estrada Parque Transpantaneira e ao Parque Estadual Encontro das Águas, região que concentra uma das maiores populações de onças-pintadas do mundo e se tornou referência internacional para o turismo de observação da espécie.

A expedição foi conduzida pelo fotojornalista José Medeiros, um dos principais conhecedores e documentaristas do Pantanal. Há cerca de três décadas, ele registra as transformações do bioma, a cultura pantaneira e os impactos das ações humanas sobre a região. Radicado em Cuiabá, Medeiros é autor do livro “O Pantanal de José Medeiros” e idealizador do projeto Pantanal+10, criado para acompanhar as mudanças ambientais no bioma entre 2020 e 2030.

Durante a visita, Medeiros apresentou ao grupo áreas de maior circulação turística e pontos onde a presença desordenada de veículos e embarcações exerce pressão sobre a fauna. Para ele, a atividade é importante para a economia regional e para a valorização do Pantanal, mas precisa ser organizada para não comprometer justamente o patrimônio natural que atrai os visitantes.

A dimensão econômica ajuda a explicar o avanço acelerado do turismo em torno das onças. Estudo científico realizado com sete pousadas e operadores da região de Porto Jofre estimou que, somente em 2015, o turismo de observação da espécie gerou receita anual de US$ 6,827 milhões. O levantamento considerou os valores mínimos pagos pelos turistas por hospedagem e permanência de três dias. Não incluiu despesas com passagens, transporte, restaurantes, artesanato, salários, gorjetas e outros serviços, razão pela qual os pesquisadores classificaram o cálculo como conservador.

Naquele ano, os pesquisadores identificaram cerca de 4.760 turistas em busca de onças na área estudada.

A receita gerada pelo turismo foi calculada em mais de 50 vezes o prejuízo estimado com ataques de onças aos rebanhos em uma área equivalente. Enquanto a visitação movimentou quase US$ 7 milhões, as perdas de gado foram estimadas em US$ 121,5 mil.n

O estudo concluiu que a onça viva passou a ter valor econômico muito superior ao prejuízo provocado pela predação de bovinos e defendeu que o ecoturismo seja tratado pelo poder público como importante gerador de receita e instrumento de conservação de todo o ecossistema pantaneiro.

O próprio levantamento já apontava crescimento acelerado da atividade. Entre 2010 e 2016, o número de leitos nas pousadas pesquisadas aumentou 20%, enquanto o valor médio das diárias subiu 24,5% entre 2015 e 2016, acima da inflação brasileira do período.

Esse mercado milionário, contudo, amplia a responsabilidade dos operadores e do poder público. Sem controle, o sucesso comercial pode produzir o efeito contrário: pressionar os animais, reduzir a qualidade da experiência dos visitantes e colocar em risco a imagem internacional do destino.

A  visita permitiu ao Ministério Público observar de perto a realidade da unidade de conservação, o movimento intenso de turistas e os desafios para compatibilizar exploração econômica e preservação ambiental. O grupo, segundo a promotora de Justiça Ana Luiza Peterlini, também discutiu a necessidade de regulamentação da atividade turística e de implantação efetiva dos instrumentos de gestão da área protegida.

Ao avaliar o avanço econômico em áreas turísticas do Pantanal, a promotora Liane Amélia Chaves Mansano advertiu que o crescimento nem sempre é acompanhado pela presença do poder público. Mesmo em regiões com forte potencial turístico, ela observa que  “o crescimento econômico nem sempre é acompanhado por políticas públicas e medidas estruturantes que garantam qualidade de vida à população local”.

Segundo a promotora, os problemas identificados nas comunidades exigem atuação conjunta dos órgãos públicos.

“A situação das comunidades ribeirinhas demanda uma atuação articulada do poder público. O papel do Ministério Público é contribuir para o diálogo, dar visibilidade a essas demandas e intermediar soluções junto aos órgãos competentes, buscando garantir dignidade e melhores condições de vida para essas populações”, acrescentou.

Embora a onça-pintada seja o principal símbolo do turismo na região, a pressão não se restringe à espécie. Capivaras, jacarés, antas, tamanduás, veados, tuiuiús e outros animais dividem espaço com o tráfego crescente de automóveis, caminhões, ônibus e veículos de turismo.

O risco aumenta porque muitos animais atravessam a pista ou permanecem próximos da estrada. Sem fiscalização permanente e controle de velocidade, o avanço do turismo amplia a possibilidade de atropelamentos, perturbação da fauna e mudanças no comportamento natural das espécies.

A Transpantaneira também enfrenta dificuldades antigas de estrutura, sinalização, fiscalização e gestão. Nos períodos de maior movimento, veículos se acumulam em pontos onde animais são avistados, criando engarrafamentos improvisados no interior do Pantanal.

No Parque Estadual Encontro das Águas, um dos principais destinos para observação de onças-pintadas, o debate envolve ainda a aplicação do plano de manejo, o controle da visitação e a definição de limites para embarcações e operadores turísticos.

Para o promotor Claudio Angelo Correa Gonzaga, da 1ª Promotoria de Justiça de Itiquira, a Travessia Pantaneira proporcionou uma experiência de conexão com o território. “Foi uma oportunidade de conhecer de perto o povo pantaneiro e perceber as contradições do modelo econômico brasileiro, que se refletem nas demandas apresentadas durante essa escuta social” – afirmou.

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