Diario de Cáceres | Compromisso com a informação
Entre 2020 e 2026 - Feminicídios deixam 512 filhos órfãos em Mato Grosso
Por Maria Clara Silva/Diário de Cuiabá
11/08/2026 - 14:01

Foto: reprodução Diário de Cuiabá

O feminicídio deixa vítimas que não aparecem necessariamente nas estatísticas de mortos. Em Mato Grosso, 512 filhos perderam as mães em decorrência de feminicídios entre 2020 e 2026, segundo dados do Observatório Caliandra, plataforma mantida pelo Ministério Público do Estado (MPMT). O levantamento revela uma consequência da violência de gênero que se prolonga depois do crime e transfere para crianças, adolescentes e familiares os impactos emocionais, sociais e econômicos da morte da mulher.

 

Os números começaram a ser contabilizados em 2020. Naquele ano, 61 filhos ficaram órfãos. O total subiu para 70 em 2021 e alcançou 92 em 2022, o maior patamar da série. Em 2023 foram 77. Depois, voltou a crescer: 87 em 2024 e 89 no ano passado. Em 2026, 36 filhos já perderam suas mães para o feminicídio.

 

INFO orfãos do feminicidio

 

A dimensão do problema vai além da perda materna. Em parcela dos crimes, o homem acusado de matar a mulher é também pai dos filhos da vítima. Nesses casos, crianças e adolescentes podem perder a mãe para o feminicídio e, ao mesmo tempo, ficar afastados do pai em razão da prisão ou responsabilização pelo crime.

 

Um levantamento da Polícia Civil referente apenas ao primeiro semestre de 2025 ajuda a dimensionar essa situação. Naquele período, 46 filhos perderam as mães em feminicídios. Desse total, 22 — ou 48% — tinham menos de 12 anos. Outros 15, correspondentes a 33%, eram filhos biológicos do autor do crime. Seis crianças, 13% do total, presenciaram o assassinato da própria mãe.

 

Entre as mulheres assassinadas naquele semestre, 81% eram mães e duas estavam grávidas. A própria Polícia Civil classifica os órfãos como vítimas indiretas dos feminicídios e chama atenção para as consequências sociais dos crimes, principalmente porque avós, tios, irmãos e outros parentes passam a assumir inesperadamente o cuidado, sustento e educação dos filhos deixados pelas vítimas.

 

Violência dentro de casa - Os dados do Observatório Caliandra também mostram que parte expressiva dos feminicídios ocorre dentro de relações afetivas.

 

Em 2022, ano que deixou o maior número de órfãos da série, 26 autores eram companheiros das vítimas, cinco eram namorados e quatro, ex-companheiros. Em 2024, 26 suspeitos eram companheiros e seis ex-companheiros. No ano passado, foram 22 companheiros e dez ex-companheiros.

 

O cenário reforça uma característica recorrente da violência contra a mulher: o risco pode estar justamente dentro de relações atuais ou encerradas.

 

As ocorrências registradas neste fim de semana em Mato Grosso voltaram a mostrar esse padrão. Em Primavera do Leste, uma jovem de 24 anos foi vítima de tentativa de feminicídio. Segundo o boletim policial, o ex-namorado teria invadido a residência e a atacado pelas costas com uma faca. A motivação relatada foi a não aceitação do fim do relacionamento.

 

Em Cuiabá, outro caso envolveu uma mulher que denunciou agressões praticadas pelo ex-marido. Também foram registradas ocorrências de violência doméstica em Gaúcha do Norte e de ameaça de morte contra uma mulher na Capital.

 

Os episódios não terminaram em mortes, mas mostram situações que a rede de proteção tenta interromper antes que a escalada da violência chegue ao feminicídio.

 

Trauma pode acompanhar toda a vida - A morte da mãe provoca uma reorganização imediata da família. Além do luto, surgem questões relacionadas à guarda, moradia, renda, escola e acompanhamento psicológico.

 

A Defensoria Pública de Mato Grosso relata que, em muitos casos, os filhos acabam acolhidos pela família materna. Quando isso não é possível, procura-se identificar parentes ou pessoas com maior vínculo afetivo com as crianças e adolescentes para assumir guarda ou tutela.

 

A situação se torna ainda mais complexa quando o assassino é o pai. A criança perde a mãe de maneira violenta e pode perder simultaneamente a convivência com o outro responsável.

 

O relatório da Polícia Civil sobre o primeiro semestre de 2025 destaca que o impacto psicológico é especialmente grave. O fato de seis dos 46 órfãos daquele período terem presenciado o assassinato da mãe mostra uma das situações extremas enfrentadas pela rede de proteção.

 

Pensão para os órfãos - Desde 2023, a legislação federal prevê uma pensão especial para filhos e dependentes menores de 18 anos de mulheres vítimas de feminicídio. O benefício é destinado às famílias que atendem ao critério de renda estabelecido pela legislação.

 

A medida tenta impedir que, além da perda da mãe e da ruptura familiar, crianças e adolescentes sejam empurrados para uma situação de maior vulnerabilidade econômica. A Defensoria Pública de Mato Grosso acompanha famílias na busca pelo benefício e relata que crianças atendidas pelo Núcleo de Defesa das Mulheres e enquadradas nos requisitos vêm conseguindo acesso ao auxílio.

 

A proteção, contudo, não se limita à renda. A dimensão alcançada pelo problema em Mato Grosso exige acompanhamento psicológico, assistência social e suporte às famílias que assumem repentinamente a criação das crianças.

 

O próprio Observatório Caliandra foi estruturado pelo MPMT para reunir informações sobre violência de gênero e feminicídios, acompanhar inquéritos e processos e divulgar a rede de serviços disponível às mulheres.

 

Os 512 órfãos contabilizados desde 2020 mostram que o impacto do feminicídio não termina com a morte da vítima. Cada assassinato pode desestruturar uma família inteira e deixar consequências que atravessam a infância e a adolescência.

 

Em pouco mais de seis anos, centenas de filhos em Mato Grosso tiveram de reconstruir suas vidas depois de perder a mãe para a violência de gênero. São vítimas que sobrevivem ao feminicídio — e que passam a depender da família e do Estado para que a violência sofrida não determine também o seu futuro.

 

Carregando comentarios...