FÁVARO E O VÁCUO DE DANTE
Crônica de João Guató
Ainda não dialoguei com Carlos Fávaro. Mas venho acompanhando, há algum tempo, seus movimentos políticos, suas escolhas e também os desafetos que a política, essa velha fábrica de inimigos, costuma produzir.
Confesso que carrego uma certa desconfiança quando surge uma nova liderança política vinda do agronegócio. Talvez seja uma deformação de quem observa Mato Grosso há tempo demais. Mas a política também serve para contrariar nossas próprias certezas.
E Fávaro vem contrariando algumas das minhas.
Desde que assumiu o Ministério da Agricultura do governo Lula, passei a observar com mais atenção sua maneira de fazer política. Não vejo nele um radical de extrema direita, tampouco um militante de esquerda ortodoxa. Vejo um político de centro, com vocação social-democrata, capaz de conversar com diferentes setores da sociedade.
E isso, em Mato Grosso, não é pouca coisa.
Fávaro parece compreender uma geografia humana que vai muito além do mapa. Consegue dialogar com cuiabanos, gaúchos, paranaenses, nordestinos e com toda essa gente que chegou de outros lugares e ajudou a construir o Mato Grosso contemporâneo.
Talvez seja justamente aí que esteja sua força.
Há alguma coisa no seu modo de fazer política que me faz lembrar Dante de Oliveira. Não porque sejam iguais, mas porque ambos parecem compreender uma verdade simples que a polarização tenta esconder: política não se faz apenas com trincheiras. Faz-se também com pontes.
Dante não cabia confortavelmente na velha divisão entre esquerda e direita. Era social-democrata, tinha capacidade de diálogo e sabia construir grandes arcos de alianças. Sua política não era feita apenas para os convertidos.
Tenho a impressão de que Fávaro começa a ocupar, no imaginário político de Mato Grosso, um espaço semelhante: o do político que conversa com lados diferentes sem necessariamente pertencer integralmente a nenhum deles.
Sua trajetória também ajuda a explicar essa plasticidade. Nascido em Bela Vista do Paraíso, no Paraná, filho de agricultores e descendente de italianos, mudou-se ainda jovem para Lucas do Rio Verde, quando aquela região estava em processo de transformação e ocupação agrícola.
Ali construiu sua trajetória como produtor rural e liderança do setor.
Depois veio a política.
Veio o Senado, veio o Ministério da Agricultura e veio também a travessia por tempos turbulentos da política brasileira. Fávaro atravessou os anos do governo Bolsonaro e, posteriormente, passou a comandar uma das áreas mais estratégicas do governo Lula.
Agora disputa novamente o Senado.
É essa a eleição que está sobre a mesa.
Mas talvez exista uma eleição maior rondando o futuro.
Porque, olhando de fora da disputa imediata, Fávaro reúne características que Mato Grosso raramente encontra numa mesma liderança: trânsito no agronegócio, experiência administrativa, capacidade de diálogo e uma imagem política que não depende exclusivamente da guerra ideológica.
Não estou dizendo que Fávaro seja Dante de Oliveira.
Seria injusto com os dois.
Dante pertence à história. Fávaro ainda está escrevendo a sua.
Mas existe um vácuo político em Mato Grosso desde que determinadas lideranças deixaram de ocupar o centro do diálogo. E, às vezes, a política produz personagens justamente para preencher esses espaços.
Talvez Fávaro seja um deles.
Seu desafio imediato é a reeleição ao Senado. Seu desafio histórico, se o futuro confirmar essa intuição, poderá ser maior: apresentar ao Mato Grosso um projeto social-democrata de desenvolvimento que consiga juntar crescimento econômico, inclusão social, responsabilidade pública e diálogo político.
Um projeto capaz de conversar com a soja sem esquecer o trabalhador.
Com o empresário sem abandonar o pequeno produtor.
Com o interior sem virar as costas para Cuiabá.
Com o agronegócio sem transformar Mato Grosso numa monocultura política.
Por enquanto, Fávaro quer permanecer no Senado.
Mas a política, como os rios de Mato Grosso, costuma esconder suas curvas.
E talvez seja justamente numa dessas curvas que esteja o próximo capítulo.
FONTE: Pasquim Cuiabano João Guato