O editorial desta semana continua repercutindo entre leitores e eleitores de Cáceres, diante das várias manifestações recebidas, a maioria corroborando aquilo que está latente neste momento decisivo da vida política de nossa cidade. Infelizmente, porém, quase nada se ouviu daqueles que mantêm suas candidaturas.
O silêncio demonstra, até aqui, a disposição de levar os nomes às urnas nas eleições de quatro de outubro, mesmo diante do risco de aprofundar o enfraquecimento político que Cáceres vem experimentando nos últimos anos. Em muitos casos, projetos pessoais e candidaturas eleitoralmente frágeis acabam se sobrepondo à necessidade coletiva de recuperar a representatividade do município.
As doze candidaturas aprovadas pela Justiça Eleitoral ampliam a pulverização dos votos. Na prática, quanto mais dividido estiver o eleitorado local, maiores são as dificuldades para as candidaturas de Cáceres alcançarem votação suficiente, enquanto candidatos de outras regiões podem se beneficiar dessa fragmentação.
Há ainda outro aspecto que merece ser discutido: o papel das direções partidárias nesse processo. Em vez de trabalharem pela construção de candidaturas regionalmente competitivas, muitas legendas estimulam o lançamento do maior número possível de nomes.
Oficialmente, isso pode ser justificado pela estratégia eleitoral de cada partido. Politicamente, entretanto, cabe perguntar: a quem interessa uma cidade como Cáceres chegar às urnas com seu eleitorado dividido entre tantas candidaturas?
Existe a percepção, inclusive entre setores da política local, de que dirigentes e grupos já consolidados podem ser beneficiados pela pulverização das candidaturas municipais. Quanto mais dividida estiver a força eleitoral das cidades do interior, menores podem ser as chances de surgirem novas lideranças capazes de ameaçar espaços ocupados há anos pelos mesmos grupos.
Se essa lógica estiver presente nas estratégias partidárias, o excesso de candidaturas deixa de ser apenas falta de organização local e passa também a funcionar como instrumento de preservação de poder.
É justamente por isso que dirigentes partidários locais e candidatos deveriam questionar se estão construindo representação para Cáceres ou simplesmente participando de estratégias eleitorais definidas por estruturas partidárias que possuem outros interesses e prioridades.
Lamentavelmente, ainda não se chegou ao bom senso de compreender que aquilo que está em jogo deveria ser maior que vaidades pessoais, interesses particulares ou eventuais incentivos proporcionados pelas estruturas partidárias.
Há quem diga que determinados candidatos estão apenas propagando seus nomes e construindo capital político para futuras eleições municipais. Isso pode até fazer parte de algum planejamento pessoal, mas está longe de resolver o problema fundamental: quem representará Cáceres na Assembleia Legislativa?
É inadmissível que interesses individuais possam contribuir para manter Cáceres sem uma representação política autêntica. Enquanto municípios politicamente organizados trabalham para concentrar forças e ampliar sua presença parlamentar, Cáceres pulveriza seu patrimônio eleitoral em uma dúzia de candidaturas, muitas delas sem demonstração concreta de competitividade para disputar uma das 24 vagas da Assembleia Legislativa.
A política exige projeto, estratégia e capacidade de compreender que algumas decisões individuais produzem consequências coletivas.
Sem autocrítica e organização, essa enxurrada de candidatos poderá contribuir novamente para que Cáceres continue sem voz própria no Parlamento estadual. Até quando vaidades pessoais, interesses partidários e estratégias de manutenção de poder falarão mais alto que a necessidade de Cáceres recuperar sua representatividade política?