Elizete Moraes, 52 anos, colaboradora da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), é uma das personagens principais do documentário Libertas – A Voz das Esquecidas, que entrou em cartaz na noite da última terça-feira (26), no Cine Teatro Cuiabá.
Natural de Quirinópolis-GO, Elizete é egressa do sistema prisional e trabalha há mais de três anos na limpeza da copa dos Núcleos Cíveis de Cuiabá, no térreo do edifício Pantanal Business, na avenida Rubens de Mendonça (av. do CPA).
“Falar disso não é fácil. São muitas lembranças do que eu passei lá dentro. Foi ruim, mas foi também um aprendizado. Foi a primeira vez que entrei em um set de filmagem. Me senti importante”, revelou.
Ela conta que conheceu Andressa Mendes, produtora executiva do curta, por acaso, no elevador do prédio onde trabalham - Andressa também é advogada de um escritório no mesmo edifício.
“É a primeira obra sobre egressas do sistema prisional em Mato Grosso e a sexta no Brasil. A mensagem que a gente quer levar é de que o direito de sonhar e recomeçar é um direito de todos”, destacou a produtora.
O filme é uma produção independente, de baixo custo (orçamento de R$ 25 mil), com classificação livre, legenda simples, intérprete de libras e trilha sonora regional.
“Era para ser apenas um podcast falando das egressas, só que optamos por mudar quando convidei a Ana Magalhães (diretora). Vimos que era um tema muito importante e deveria ter um olhar mais cinematográfico para a obra, para conseguir dar voz e vez para as mulheres egressas, que geralmente não são tão faladas em nossa sociedade”, pontuou Andressa.
De acordo com a produtora, a exibição de estreia no Cine Teatro, no dia 26, contou com mais de 150 espectadores.
Elizete disse que de imediato gostou do roteiro e ainda ajudou a produtora a encontrar outras egressas do sistema penitenciário que toparam participar do projeto.
“Para mim, foi até um desabafo. Eu queria que as pessoas soubessem o que a gente vive lá dentro. Foi muito gratificante. Nunca esperei passar por isso. Tem muita gente que precisa ser ouvida. Deveria ter mais projetos como esse, falar mais sobre esse assunto, abrir espaço”, ressaltou.
O filme traz duas amigas vlogueiras, criadoras de conteúdo, que conhecem Cleiciele e Elizete, mulheres com trajetórias de vida diferentes, mas unidas por um ponto em comum: ambas são egressas do sistema prisional e lutam diariamente por um recomeço digno.
A história acompanha, em tom sensível e respeitoso, a rotina dessas mulheres, revelando como sonhos podem ser reconstruídos e como o apoio de instituições sociais é essencial nesse processo de transformação.
Na vida real, Elizete ficou detida por um ano e seis meses na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, onde era atendida pelo defensor público André Rossignolo.
Logo que foi solta, ela recebeu a oportunidade de trabalho na Defensoria por meio de um convênio com a Fundação Nova Chance (Funac). Atualmente, ela está vinculada a uma empresa terceirizada com registro na carteira de trabalho (CLT).
“Fiquei muito feliz por contribuir com esse projeto do filme. Eu tive uma oportunidade e hoje me sinto reinserida na sociedade. De alguma forma, espero contribuir para que isso chegue ao ouvido de outras pessoas, até mesmo dos empresários e de quem oferece trabalho, para que outras pessoas possam ter essa chance”, afirmou.
A exibição no Cine Teatro, com entrada gratuita, foi a estreia oficial do curta-metragem de 19 minutos, no formato docuficção – um gênero híbrido que combina elementos do documentário e da ficção, no qual a narrativa busca capturar a realidade ao mesmo tempo que introduz elementos ficcionais para reforçar a realidade através da expressão artística.
De acordo com a produção do filme, ainda não há um cronograma de novas exibições do curta, mas a previsão é de que o documentário seja exibido em unidades prisionais e na Fundação Nova Chance. O filme também deve ser inscrito em mostras e festivais de cinema nacionais e, posteriormente, será disponibilizado no YouTube.
O curta é apresentado por Beatriz e Katielle, do vlog “Papo de Domingo”, que conduzem conversas inspiradoras com Cleiciele, 23, e Elizete, 52. Ao compartilharem suas vivências, sonhos e talentos, as protagonistas mostram que suas histórias não se resumem aos erros do passado, mas apontam para novos caminhos possíveis.
A iniciativa faz parte do projeto Encontros com Cinema e foi realizada via lei Paulo Gustavo, por meio de um edital da Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá.
Produção – Anna Magalhães, cuiabana de 34 anos, com 14 dedicados ao audiovisual, assina a direção e o roteiro.
“O objetivo é criar um espaço de escuta verdadeira, onde possamos falar de desafios, mas também celebrar conquistas. Queremos provocar reflexões sobre a ressocialização e o papel essencial da sociedade na reintegração das egressas”, ressaltou a diretora.
A produtora executiva é Andressa Mendes, advogada, pedagoga e gestora de projetos. Estreando no audiovisual, ela traz um olhar sensível voltado ao impacto social e acredita na força da comunicação como ferramenta de transformação. O projeto também contempla capacitações profissionais para mulheres egressas, com foco em autonomia e geração de renda.
“Este é apenas o começo. Queremos que Libertas seja uma semente para novas narrativas, onde essas mulheres sejam vistas não por seus erros, mas por sua coragem de recomeçar”, enfatizou.