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Pirlimpimpim: Apito Final, Silêncio Geral!
Por por Andrea Maria Zattar
20/01/2026 - 15:25

Foto: reprodução


Fantasia da Copa x realidade das urnas em 2026
 

2026 chega com a Copa do Mundo e as eleições no calendário.
 

Dois acontecimentos capazes de concentrar atenções, mobilizar emoções e deslocar o debate público. A bola rola, as torcidas ocupam ruas e telas; depois, candidatos disputam o púlpito. Mas entre um apito final e o primeiro comício, nem todas as vozes acompanham o fluxo. Algumas se perdem. Outras são dobradas e guardadas no bolso.
 

Narrar a realidade, nesses tempos, é um ato de coragem. Há histórias que distraem com euforia fugaz, como o pó de pirlimpimpim do Sítio do Picapau Amarelo, capaz de teletransportar sem esforço, sem travessia. A Copa faz o mesmo: arrasta milhões para estádios, bares e festas coletivas, onde o real se dissolve, ainda que por instantes.
 

Mas nem todos se deixam levar. Enquanto multidões seguem o fluxo do espetáculo, há quem interrompa o trajeto e insista em permanecer atento ao que acontece quando a festa termina. É nesse ponto que Emília entra em cena.
 

Nem todos embarcam no mundo da fantasia. Emília, a boneca falante criada por Monteiro Lobato, vai, mas volta. Participa da mágica, atravessa mundos, mas não se perde. Questiona o roteiro. Fala alto demais, incomoda demais. “Por que isso? E agora?”, provoca, trazendo o real de volta ao centro.

O preço vem rápido. Dona Benta dobra a boneca falante no bolso. O silêncio se impõe, não por falta de resposta, mas porque refutá-la exigiria encarar os questionamentos. 
 

Fora da ficção, não é muito diferente. Quando vozes assim são caladas, o espaço é ocupado pelo espetáculo. Slogans simples, distrações convenientes, narrativas que confortam. Os problemas persistem. Propostas são apresentadas, discursos se acumulam, mas pouco se transforma.
 

Cultura, esporte e lazer são importantes: mobilizam, reúnem, criam vínculos. Fazem parte da vida coletiva e não devem ser desprezados. Mas educação, saúde e saneamento são indispensáveis. Quando o espetáculo ocupa todo o espaço, o risco não está na festa, mas no silêncio que se forma em torno do que sustenta a vida cotidiana.
 

Que neste ano a torcida não se limite à seleção brasileira, aos jogadores que entram em campo. Que a torcida, e a cobrança, se voltem para a saúde, a educação, o saneamento, as obras públicas. Porque o jogo decisivo não acontece apenas nos estádios.
 

A fantasia pode até suspender a realidade por alguns instantes. Mas é sempre o retorno que importa.
 

Quando o apito final soa e o espetáculo se encerra, você volta para questionar ou prefere ficar no bolso?
 

Andrea Maria Zattar, advogada trabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/MT, articulista e ativista em causas sociais.

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