Fantasia da Copa x realidade das urnas em 2026
2026 chega com a Copa do Mundo e as eleições no calendário.
Dois acontecimentos capazes de concentrar atenções, mobilizar emoções e deslocar o debate público. A bola rola, as torcidas ocupam ruas e telas; depois, candidatos disputam o púlpito. Mas entre um apito final e o primeiro comício, nem todas as vozes acompanham o fluxo. Algumas se perdem. Outras são dobradas e guardadas no bolso.
Narrar a realidade, nesses tempos, é um ato de coragem. Há histórias que distraem com euforia fugaz, como o pó de pirlimpimpim do Sítio do Picapau Amarelo, capaz de teletransportar sem esforço, sem travessia. A Copa faz o mesmo: arrasta milhões para estádios, bares e festas coletivas, onde o real se dissolve, ainda que por instantes.
Mas nem todos se deixam levar. Enquanto multidões seguem o fluxo do espetáculo, há quem interrompa o trajeto e insista em permanecer atento ao que acontece quando a festa termina. É nesse ponto que Emília entra em cena.
Nem todos embarcam no mundo da fantasia. Emília, a boneca falante criada por Monteiro Lobato, vai, mas volta. Participa da mágica, atravessa mundos, mas não se perde. Questiona o roteiro. Fala alto demais, incomoda demais. “Por que isso? E agora?”, provoca, trazendo o real de volta ao centro.
O preço vem rápido. Dona Benta dobra a boneca falante no bolso. O silêncio se impõe, não por falta de resposta, mas porque refutá-la exigiria encarar os questionamentos.
Fora da ficção, não é muito diferente. Quando vozes assim são caladas, o espaço é ocupado pelo espetáculo. Slogans simples, distrações convenientes, narrativas que confortam. Os problemas persistem. Propostas são apresentadas, discursos se acumulam, mas pouco se transforma.
Cultura, esporte e lazer são importantes: mobilizam, reúnem, criam vínculos. Fazem parte da vida coletiva e não devem ser desprezados. Mas educação, saúde e saneamento são indispensáveis. Quando o espetáculo ocupa todo o espaço, o risco não está na festa, mas no silêncio que se forma em torno do que sustenta a vida cotidiana.
Que neste ano a torcida não se limite à seleção brasileira, aos jogadores que entram em campo. Que a torcida, e a cobrança, se voltem para a saúde, a educação, o saneamento, as obras públicas. Porque o jogo decisivo não acontece apenas nos estádios.
A fantasia pode até suspender a realidade por alguns instantes. Mas é sempre o retorno que importa.
Quando o apito final soa e o espetáculo se encerra, você volta para questionar ou prefere ficar no bolso?
Andrea Maria Zattar, advogada trabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/MT, articulista e ativista em causas sociais.