Começar um novo ano costuma vir acompanhado de listas extensas, metas ambiciosas e uma sensação quase automática de que precisamos dar conta de tudo, e rápido. Mas, ao longo da vida, a experiência e os estudos mostram exatamente o contrário: crescer de forma consistente exige foco, método e, acima de tudo, autocontrole.
Foi refletindo sobre esse excesso de demandas que me reencontrei com uma metáfora poderosa, utilizada pela psicologia positiva e apresentada no livro O Jeito Harvard de Ser Feliz: o Círculo do Zorro. A referência vem da antiga lenda do personagem Zorro, criada há mais de um século.
Antes de se tornar o herói ágil e destemido que conhecemos, ele foi treinado por seu mestre, Dom Diego, de uma forma bastante peculiar: dentro de um círculo desenhado no chão. Ali, sem poder sair daquele espaço limitado, ele aprendia a se defender, atacar, controlar o corpo e, principalmente, dominar as emoções. Esse método simples traz uma lição profunda: antes de enfrentar o mundo, é preciso dominar a si mesmo.
Na vida cotidiana, fazemos justamente o contrário. Diante de um problema grande, uma casa desorganizada, uma vida financeira confusa, um projeto profissional complexo,tentamos resolver tudo de uma vez. O resultado costuma ser ansiedade, procrastinação e frustração.
O Círculo do Zorro propõe outro caminho: reduzir o foco. Em vez de tentar arrumar a casa inteira, comece pela mesa onde você trabalha. Em vez de reorganizar toda a vida financeira, escolha uma única ação possível hoje, pequena, concreta e viável. Quando concluímos uma tarefa, mesmo que simples, nosso cérebro libera neurotransmissores ligados à sensação de recompensa. É o famoso “consegui”. Essa sensação gera motivação, autoconfiança e energia para avançar um pouco mais.
Nada se aprende sem treino. Quando admiramos alguém habilidoso, esquecemos que aquela competência foi construída aos poucos, repetição após repetição. O Zorro não nasceu dominando a espada, ele treinou. O cinema nos ensinou isso de forma clara em Karatê Kid. Antes de lutar, o aprendiz precisou repetir movimentos aparentemente simples e até frustrantes: lixar o carro, tirar e colocar o casaco, sempre em movimentos circulares. Cada pequeno gesto fazia parte de um aprendizado maior.
O mesmo vale para a vida real. Não é sair da zona de conforto, é ampliá-la. Existe uma expressão muito comum que, pessoalmente, nunca fez muito sentido para mim: “sair da zona de conforto”. Afinal, tudo o que fazemos na vida é, em alguma medida, para construir conforto, emocional, financeiro, relacional.
O Círculo do Zorro propõe algo mais inteligente: ampliar a zona de conforto. Você aprende algo novo, no começo sente desconforto, mas à medida que domina aquela habilidade, ela se torna confortável. Então, amplia-se o círculo e adiciona-se um novo desafio. Não se trata de abandonar o que já foi conquistado, mas de crescer com base nele.
Estudos mostram que pessoas se mantêm mais produtivas quando trabalham com metas fragmentadas. Celebrar pequenas conquistas não é vaidade, é estratégia. Cada etapa concluída reforça a sensação de progresso e mantém o ritmo. Grandes objetivos só se tornam possíveis quando são construídos a partir de pequenas ações consistentes.
Se este novo ano trouxe muitos planos, minha sugestão é simples: desenhe seu círculo. Escolha uma área da sua vida, seja pessoal, profissional, financeira, espiritual, e defina uma única ação possível agora, pequena, realista e sob seu controle. Domine esse espaço e depois, expanda. Crescer não é fazer tudo ao mesmo tempo, mas sim fazer bem o que precisa ser feito, um passo de cada vez.
Sonia Mazetto é Gestora de Potencial Humano, Terapeuta Integrativa, Fonoaudióloga e Palestrante