A política brasileira atravessa um período em que, muitas vezes, a posição ideológica de uma liderança parece importar mais do que os resultados entregues à população. O caso do senador Carlos Fávaro é um exemplo evidente dessa distorção. Por ter apoiado Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 e assumido o Ministério da Agricultura e Pecuária, Fávaro passou a ser tratado por setores da direita como adversário e até como “traidor”. Entretanto, essa narrativa ignora um fato essencial, durante sua passagem pelo ministério, o agronegócio brasileiro, especialmente o de Mato Grosso, acumulou conquistas expressivas.
Carlos Fávaro comandou o Ministério da Agricultura e Pecuária entre janeiro de 2023 e abril de 2026, quando deixou o cargo para retornar ao Senado e disputar a reeleição. Produtor rural, ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, a Aprosoja-MT, e ex-vice-governador, ele chegou ao ministério conhecendo de perto os desafios enfrentados no campo. Não foi alguém que conheceu o agronegócio apenas pelos gabinetes de Brasília. Sua trajetória foi construída dentro do setor produtivo, iniciada em um assentamento em Lucas do Rio Verde.
Mesmo assim, parte do agro mato-grossense parece preferir a condenação ideológica ao reconhecimento dos resultados. Fávaro é criticado por ter apoiado Lula depois de manter uma relação institucional com o governo de Jair Bolsonaro. Porém, em uma democracia, apoiar um projeto político diferente não deveria apagar a contribuição de uma liderança para seu estado. Divergências são legítimas, negar fatos e conquistas por conveniência eleitoral não é.
Sob sua condução, o Ministério da Agricultura participou da abertura de 555 novos mercados internacionais para produtos agropecuários brasileiros. Em dezembro de 2025, o governo federal já contabilizava 508 novas oportunidades comerciais abertas em mais de 80 países, resultado de uma atuação conjunta entre o ministério, o Itamaraty, a ApexBrasil e o setor produtivo. A ampliação dos destinos reduziu a dependência de poucos compradores e fortaleceu a capacidade de reação do Brasil diante de crises comerciais.
Essa diversificação mostrou sua importância quando os Estados Unidos anunciaram tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras. Naquele momento, Fávaro reagiu publicamente, classificou a medida como injustificável e defendeu reciprocidade, diálogo diplomático e busca imediata por compradores no Oriente Médio, no Sul da Ásia e em outras regiões do chamado Sul Global. Em vez de submissão ou discurso vazio, houve uma estratégia para reduzir prejuízos, preservar empresas, proteger empregos e encontrar novos destinos para os produtos nacionais.
Durante sua gestão também foram lançados, por três anos consecutivos, Planos Safra com volumes recordes de crédito para a agricultura empresarial. Só o Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 516,2 bilhões, com recursos para custeio, comercialização e investimentos. Pode-se discutir taxas de juros, condições de acesso e dificuldades enfrentadas pelos produtores, mas não é possível negar o esforço para manter o crédito rural funcionando em um cenário econômico complexo e de juros elevados.
Mato Grosso foi diretamente favorecido pelo estímulo à verticalização da produção. O estado deixou de ser visto apenas como exportador de soja e milho in natura e avançou na transformação de grãos em etanol, biodiesel, ração e proteína animal. Essa política agrega valor à produção, gera empregos, fortalece as indústrias instaladas nos municípios e mantém uma parcela maior da riqueza dentro do próprio estado. O apoio à cadeia do etanol de milho, incluindo iniciativas desenvolvidas em municípios como Sorriso e Lucas do Rio Verde, abriu novas perspectivas para a segunda safra e para os coprodutos utilizados na alimentação animal.
A bioenergia também ganhou espaço estratégico. O avanço das misturas de biodiesel e etanol representa mais demanda por milho, soja e outras matérias-primas produzidas em Mato Grosso. Trata-se de uma política que une geração de renda, industrialização, segurança energética e redução da dependência dos combustíveis fósseis. Para um estado que lidera a produção nacional de grãos, ampliar o mercado interno dos biocombustíveis significa criar novas oportunidades para produtores, cooperativas, transportadores e indústrias.
Outra conquista importante foi o fortalecimento da pesquisa agropecuária. Durante a gestão de Fávaro, o orçamento público de referência da Embrapa passou de R$ 161 milhões, em 2024, para R$ 335 milhões, em 2025. Também foi anunciado concurso público com 1.027 vagas, após mais de uma década sem novas seleções. Valorizar a Embrapa significa investir em produtividade, melhoramento genético, recuperação de solos, adaptação climática, sustentabilidade e tecnologias que fazem diferença dentro das propriedades rurais.
É evidente que nenhuma gestão é perfeita e que todo agente público deve ser fiscalizado, questionado e cobrado. Entretanto, a crítica precisa ser honesta. Não é razoável ignorar mercados abertos, crédito rural, fortalecimento da pesquisa, expansão da bioenergia, habilitação de plantas frigoríficas e apoio à industrialização simplesmente porque o responsável por essas ações fez uma escolha política diferente daquela defendida por parte do agronegócio.
O próprio debate sobre uma suposta “traição” precisa ser colocado em perspectiva. Fávaro afirma que nunca pertenceu ao grupo político de Bolsonaro e recorda que o ex-presidente apoiou outros candidatos nas disputas pelo Senado em Mato Grosso. Sua aproximação com Lula ocorreu publicamente em 2022, quando declarou ter comparado os resultados dos diferentes governos e tomado uma decisão política. Pode-se concordar ou discordar dessa escolha, mas classificá-la automaticamente como traição é substituir o debate político por uma espécie de patrulhamento ideológico.
Carlos Fávaro também construiu uma atuação de caráter municipalista, direcionando esforços para que investimentos, emendas, equipamentos e projetos chegassem aos municípios mato-grossenses. Esse olhar é importante porque a força do agronegócio não se limita às grandes propriedades. Ela passa pelas estradas municipais, pela saúde, pelas escolas, pelas feiras regionais, pelo comércio, pelos pequenos produtores e pela infraestrutura das cidades que sustentam a produção.
Mato Grosso precisa avaliar seus representantes pelo que fizeram pelo estado, e não apenas pelo palanque em que estiveram. A ideologia pode orientar escolhas, mas não deveria impedir o reconhecimento dos resultados. Ao transformar Carlos Fávaro em inimigo apenas por sua aproximação com Lula, uma parcela da direita e do próprio agronegócio corre o risco de demonstrar ingratidão com quem ocupou um dos ministérios mais estratégicos do país e utilizou essa posição para defender pautas diretamente relacionadas à economia mato-grossense.
No final, os números permanecem, mercados foram abertos, recursos foram disponibilizados, a pesquisa foi fortalecida, a bioenergia avançou e a produção de Mato Grosso encontrou novas possibilidades de industrialização e comercialização. A disputa eleitoral passa, os discursos mudam e as alianças se reorganizam. Os benefícios deixados para o setor produtivo, porém, não podem ser apagados simplesmente porque não cabem na narrativa de um grupo político ou em uma única sigla partidária.
Esdras Crepaldi
Jornalista, comunicador e poeta