"O papel das igrejas e das religiões neste momento de pandemia, é ajudar a salvar a pessoa inteira (corpo, alma e espírito) em colaboração com as ciências", afirma Padre Evandro Stefanello
Por Diário de Cáceres/Clarice Helena Navarro
07/04/2021 - 13:12

Foto: Noely Ortega

O padre Evandro Stefanello, da paróquia São Luiz, de Cáceres,  falou com o Diário de Cáceres sobre a pandemia de covid e suas consequências. O padre falou sobre o papel da igreja, ações, funcionamento e cuidados de biossegurança. "A vida não é só corporeidade, mas é alma, é vontade, é liberdade, é amor, é a existência de uma mesma essência (corpo, alma e espírito), criada à imagem e semelhança de Deus"- afirmou Padre Evandro referindo-se à importância do exercício da fé.  Confira:

 

Diário de Cáceres: Como o senhor vê quem defende o fechamento? 

Padre Evandro: Sempre quando falamos em estar de acordo ou não com algo, pensamos primeiramente a partir das nossas necessidades e anseios mais profundos e necessários. Por um lado, o fechamento ajuda no vazio sanitário, na diminuição da circulação de pessoas e, consequentemente, do contágio pelo coronavírus. O fechamento é uma medida amplamente defendida pelo judiciário, pelo legislativo, pelo executivo e pelos profissionais da saúde, onde estes já dão sinais de exaustão e possível depressão, o que requer parcerias para ajudá-los a trabalhar esta situação. Nos que preferem o fechamento encontram-se alguns que perderam o seu familiar ou o seu amigo, o que é justificável a sua decisão e o seu ponto de vista, pois perder alguém não é algo que se cure de hoje para amanhã, além do medo da morte eminente. Por outro lado, temos aqueles que preferem a abertura organizada e controlada com medidas de segurança (o que mais se mostrou eficaz foi a utilização da máscara, a higienização frequente das mãos e o distanciamento entre as pessoas), pois dependem do comércio ou da sua atividade para sobreviver. Enquanto são determinadas pelas autoridades públicas o que é e o que não é essencial (o que é, de fato, importante para todos), os que dependem do seu comércio (atividade), o têm como essencial para a sua subsistência e isto precisa ser longamente considerado através de políticas públicas. Nos encontramos diante de um momento em que estão perdendo os seus negócios, suas propriedades, tendo como consequência certa a depressão, o suicídio, famílias esfaceladas, divórcios, agressões, nervosismo, feminicídio e outros. Dentre estes também encontramos aqueles que já estão passando fome, e a fome não espera 15 dias ou 20 dias até que o decreto termine, pois a fome é imediata, para agora (nem para hoje). Infelizmente encontramos muitas pessoas tendo que escolher entre o contágio e a fome e não estão encontrando suporte. A resposta não é se se sou contra ou a favor, mas sobre qual necessidade estamos falando? É sobre vida e morte (morte por covid ou morte por fome ou depressão?). O que entendemos pela vida e que vida realmente precisa ser salva (biologia simplesmente ou a vida como um todo)? Na paróquia tenho pessoas que sugerem o fechamento e outras que sugerem a abertura, confesso que ambos possuem argumentos fortes e convincentes. Então respondo à pergunta da seguinte forma: sou a favor da defesa da vida em todas as suas dimensões, corpo, alma e espírito. Não podemos apenas defender a vida na sua característica física-biológica sem defender o que é necessário para a sua subsistência, pois a vida não é só corporeidade, mas é alma, é vontade, é liberdade, é amor, é a existência de uma mesma essência (corpo, alma e espírito), criada à imagem e semelhança de Deus.

 

Diário de Cáceres: Qual é o papel das Igrejas na pandemia? 

Padre Evandro: O ser humano é constituído de corpo, alma e espírito (possuímos uma alma espiritual), o que o torna um ser vivente, animado não por uma alma animal ou vegetal, mas por uma alma espiritual, que veio de Deus e para Deus deverá retornar. Na sua sabedoria, Deus criou a ciência para que ajudasse ao ser humano no cuidado com o seu corpo físico e com a sua psique, possibilitando-lhe uma melhor condição de vida e dignidade. Devemos destacar que a vida como um todo deve ser defendida e cuidada, e não apenas no seu aspecto biológico. Neste tempo de pandemia temos aqueles profissionais que estão garantindo o cuidado com o corpo, mas a vida humana não é apenas corpo, é psique e espírito. Assim temos os psicólogos que nos ajudam no cuidado com o nosso psicológico (porém a maioria não tem acesso a psicólogos) e temos as igrejas (ou as religiões) que nos ajudam a manter o nosso espírito saudável (fé, esperança e caridade são específicas do espírito humano). É o casamento perfeito entre ciência e fé que possibilitam a verdadeira vida do ser humano e que permite o equilíbrio psicológico (mens sana in corpore sano). Permitir que o corpo seja salvo e impossibilitar o mesmo para o espírito, é levar o ser humano para o colapso e para a morte (depressão, suicídio, ausência de perspectiva de vida), mais cedo ou mais tarde. Cuidar do corpo, sem cuidar do espírito, é o mesmo que condenar o espírito à perdição eterna. Valerá a pena salvar o corpo e condenar o seu espírito para toda a eternidade? É este o papel das igrejas e das religiões neste momento de pandemia, ajudar a salvar a pessoa inteira (corpo, alma e espírito) em colaboração com as ciências. É na Igreja que as pessoas encontram o seu espaço de expressão para desintoxicar o interior, possibilitando-lhe um novo recomeço.

 

Diário de Cáceres: Dentro do contexto da pandemia, como as igrejas estão funcionando?

Padre Evandro: A Paróquia São Luiz, atendendo às determinações do decreto estadual e municipal, tem funcionado dentro dos limites dos horários permitidos. No momento estamos tendo as missas de terça-feira a sexta-feira às 18 horas e sábado e domingo no período da manhã, às 7 horas e às 9 horas com a presença de 240 pessoas, o que corresponde a 30% da capacidade da catedral que é de 800 pessoas. Para a participação da santa missa está sendo exigido que os fiéis utilizem a máscara durante todo o tempo em que estiverem dentro da igreja, não sendo permitida a permanência sem o uso da máscara, com exceção dos cantores durante o canto, porém cada cantor tem a sua capa de microfone. Os leitores são apenas dois de tal forma que cada um usa o seu microfone sem a necessidade de dividirem o mesmo microfone. Todos devem higienizar as mãos com álcool gel na entrada da Igreja, têm a temperatura corporal medida e passam pelo tapete sanitizante. Dentro da igreja as pessoas devem manter a distância de um metro e meio, apenas as pessoas que moram na mesma casa podem se sentar juntas, caso contrário são permitidas somente duas pessoas por banco, uma em cada ponta do banco, e nem todos os bancos são utilizados, pois a cada um utilizado um está bloqueado, dando a distância de um metro e meio de uma pessoa para outra que não mora na mesma casa. A comunhão eucarística é distribuída com a utilização de luvas e o manuseio dos objetos sagrados pelos ministros são realizados com a utilização de luvas. Durante a comunhão e o ofertório, que são dois momentos em que os fiéis costumeiramente saem dos seus lugares e formam filas, todos permanecem nos seus lugares e a comunhão é levada até o fiel. Para o ofertório é passada uma cestinha junto com o álcool para a higienização das mãos. De uma missa para a outra todos os bancos da igreja são higienizados inclusive onde os fiéis colocam os pés e se ajoelham. O piso é limpo todos os dias e a igreja já foi desinfectada duas vezes pelo Corpo de Bombeiros Militares do batalhão de Cáceres em fevereiro e março deste ano.

Diário de Cáceres: O que a igreja católica está fazendo na prática para ajudar as pessoas afetadas, seja pelo coronavírus, pela perda de um ente querido, seja pela depressão e ansiedade diante de tal cenário? 

Padre Evandro: A Igreja Católica está contribuindo para que exista um equilíbrio entre corpo e espírito, garantindo que as pessoas, através do atendimento individualizado, consigam manter um mínimo de equilíbrio psicológico, emocional e espiritual. A igreja, desde o início da pandemia se organizou para ajudar aos mais necessitados em diversas frentes e com a ajuda valiosa de leigos e leigas que contribuem com suas doações frequentes.

 Desde o início da pandemia conseguimos distribuir mais de duas mil cestas básicas em toda a paróquia (sem contar as paróquias do município, que são no total de cinco, as Igrejas Evangélicas e outras instituições) a 240 famílias carentes que são cadastradas e visitadas frequentemente pelas equipes da partilha. Estas famílias não são escolhidas aleatoriamente, mas são famílias conhecidas e visitadas, realidades que são conhecidas pela paróquia, o que nos dá autoridade para dizer que muitas pessoas estão passando fome e não é uma fome filosófica, retórica ou política, é fome na prática, fome que não espera o final do dia. 

Infelizmente, como contávamos muito com as doações de pessoas e do comércio, com as dificuldades que estes também estão passando, nos últimos meses não conseguimos atender nem uma quarta parte das famílias que são atendidas e até mesmo a situação econômica da paróquia entrou em declínio, o que também impossibilita a ajuda aos mais necessitados com os recursos próprios (dízimo), pois sempre colaboramos em algumas situações específicas como compra de remédios, leite e fraldas para crianças, pagamento de água e energia, alimentação, gás e outras ajudas mais urgentes. 

Acreditamos que esta realidade seja passageira e tenhamos condições, com a colaboração dos fiéis leigos e leigas, de retomar a ajuda às pessoas que estão tendo que escolher entre o contágio e a fome. Muitos que procuram a Igreja declaram que não têm outra opção a não ser sair para trabalhar, pois do contrário, não conseguirão manter as suas famílias. Muitos procuram a paróquia para receber um pouco de alimento que é possível ser doado. Uma senhora de idade, na secretaria da paróquia, chorando, nos disse que não sabe mais o que fazer, não consegue pagar a sua água, não consegue pagar a energia, não consegue mais comprar o seu gás e muito menos comprar os seus remédios, pois não é aposentada e não tem fonte de renda e o seu esposo está doente e impossibilitado de trabalhar. O que ela come, é o que a paróquia ajuda. 

Nós padres atendemos diariamente várias pessoas que estão vindo em busca deste equilíbrio espiritual, para não definharem na sua dimensão física e psicológica. Atendemos com frequência pessoas que não sabem mais o que fazer diante da dificuldade da fome, da perca do seu emprego, da dificuldade do seu comércio, pessoas estas que se encontram à beira do colapso psicológico e espiritual, o que os levam a pensamentos suicidas (não foi nem um e nem dois que apareceram com este pensamento, mas várias pessoas), com depressão e não conseguem pagar um psicólogo ou não sabem como ter acesso a este tipo de atendimento. Muitos que procuram a igreja tem confiança no seu padre (no seu pastor) e procuram simplesmente para desabafar a situação que estão vivendo, a dificuldade que estão passando e não estão conseguindo encontrar meios oportunos que sejam capazes de os ajudar na sua dificuldade, estão perdidos, sem saber o que fazer, a quem recorrer e que futuro terão diante destas incertezas econômicas, físicas, psicológicas e políticas.

 Uma boa parte das pessoas que nos procuram não estão encontrando perspectiva de vida (pois estão defendendo apenas a vida física-biológica) o que os leva a uma falta de fé na política (mesmo que tenhamos políticos que honram o seu mandato), mas nunca uma falta de fé em Deus. Não é raro encontrar uma pessoa sozinha diante do sacrário apresentando a Deus as suas necessidades, as suas dores mais profundas, dores da alma, do espírito. Não é raro encontrar pessoas na missa que, diante da situação que estão passando, derramam uma ou várias lágrimas, seja pela sua situação econômica, situação psicológica ou pelo seu momento de luto, onde sempre procuramos levar uma palavra de conforto e de acolhida, para que cada pessoa se sinta abraçada por Deus, acolhida pela Igreja e amada pelos seus irmãos. 

É uma dor onde se sofre junto no silêncio de cada lágrima derramada, na dor de não poder se despedir do seu pai, da sua mãe, do seu irmão ou irmã, do seu tio ou tia, do seu primo ou prima, onde apenas recebe um caixão lacrado e não pode, nem sequer, dar o último abraço. Nestes momentos só o conforto de Deus que vem pela fé é que ajuda as pessoas a superarem as etapas do luto (fase do choque, fase controlada, fase do vazio existencial e fase da readaptação). Aqui entra o aconselhamento pastoral que a igreja oferece e que ajuda as pessoas nas mais variadas situações da sua vida e, principalmente, nos momentos de conflitos e crises para que melhorem o seu relacionamento consigo mesmos, com os outros e com Deus de uma maneira consciente e madura. 

Sempre que uma pessoa se abre, que consegue falar do seu problema ou da sua dor (e ela encontra esta abertura no padre ou no pastor) ela consegue tomar consciência do que está acontecendo e reorganizar sua vida interior, trazendo mais equilíbrio psíquico e espiritual. Neste atendimento, sempre levamos em consideração a pessoa como um todo e não como caixinhas que se abre de acordo com a circunstância. Em certa ocasião recebi uma ligação de um fiel chorando porque não tinha mais conseguido vaga para poder participar da Santa Missa (só podiam 50 pessoas) e por causa desta ligação, nos desdobramos e colocamos mais missas para que mais pessoas tivessem o alimento espiritual e fortalecessem a sua fé e, consequentemente, robustecessem o seu psicológico e a confiança em dias melhores. Estamos todos os dias atendendo pessoas que estão com sintomas nítidos de depressão causadas pela pandemia e, de forma mais específica, pelo isolamento social. Muitos não estão mais conseguindo manter o equilíbrio psicológico diante do isolamento e isto nos mostra que, realmente, não fomos criados para o isolamento, para o individualismo e para vivermos presos dentro de casa (que este tempo de trevas nos ensine o verdadeiro sentido da comunidade). 

Muitos que nos procuram não conseguem mais, psicologicamente, manter uma mente sadia dentro desta realidade de isolamento, mesmo que tenham a consciência que o isolamento e/ou o distanciamento são importantes para evitarem o contágio e aqui entra a importância da Igreja aberta. A nossa maior alegria diante do sofrimento é termos a certeza que ele não é absoluto, pois o que é limitado pode ser superado. Se tudo nesta vida é finito concluímos que o sofrimento também é finito, ou seja, pode ser relativizado. Com isto devemos compreender o sofrimento como uma advertência contra males maiores ou que proporcionaria um maior crescimento da pessoa tanto no corpo como no espírito.

 A Igreja sempre procurou orientar os seus fiéis em relação aos cuidados necessários para a prevenção da covid 19, estando sempre junto e procurando dar a sua contribuição ao poder público para que as melhores decisões sejam tomadas e pautadas pela defesa da vida na sua totalidade e essência. Sempre procuramos orientar os fiéis que não se cuidar neste momento é também uma forma de tentar a Deus e não amar ao próximo como a si mesmo, pois todo bom cristão deve ser também um bom cidadão, que sabe onde e como reivindicar os seus direitos sem que, para isto, se utilize de violência ou de subterfúgios imorais e que possam levar ao caos. O cristão precisa sempre ter a mansidão de Cristo para com todos e o zelo enérgico de Cristo pela casa do Pai. A Igreja também sempre ficou atenta às necessidades de todos, sempre ressaltando que o poder público precisa dar uma responsa à todas as necessidades da população e não apenas pensar monocraticamente, mas olhar para a pessoa como um todo, em todas as suas necessidades.

 

 

 

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