Cáceres entardeceu mais silenciosa nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026. O “Seu Neuzo" Antônio de Oliveira, aos 80 anos, fez a sua Páscoa, deixando uma lacuna irreparável nos movimentos sociais, na militância do Partido dos Trabalhadores e nas margens dos rios que ele defendeu por toda vida. Agricultor familiar, apicultor, sindicalista e líder comunitário, seu Neuzo foi a tradução viva da política que brota da terra e se recusa a se curvar diante da injustiça.
Nascido no interior paulista em outubro de 1945, Neuzo fincou raízes definitivas no Alto Pantanal. Encontrou no cultivo do chão e na lida paciente com as abelhas a compreensão profunda de que a vida humana depende do equilíbrio das matas e da pureza das águas. Quando o grande fogo devastou o bioma em 2020 e reduziu seu próprio apiário a cinzas, ele não recuou. Pelo contrário: transformou a dor pessoal em bandeira coletiva, exigindo socorro aos pequenos produtores e denunciando as feridas abertas pela destruição predatória da natureza.
Sua caminhada nunca foi pautada pela vaidade do poder. No Partido dos Trabalhadores, legenda em que construiu sua trajetória pública, colocou o nome à disposição das urnas em 2004, 2006 e novamente em 2024, já aos 78 anos de idade. Não buscava vaidade eleitoral; utilizava o espaço da disputa democrática para ecoar as reivindicações dos invisibilizados, o valor da agricultura camponesa e a urgência de proteger o Pantanal. Declarava à Justiça Eleitoral pouco mais que seus utilitários de trabalho, mantendo até o fim a coerência da simplicidade franciscana que sempre o definiu.
A voz de Neuzo ecoou firme onde as decisões aconteciam. Como conselheiro da Associação Sociocultural e Ambiental Fé e Vida no Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Cabaçal, combateu o avanço desenfreado de hidrelétricas e barramentos que sufocam nossos afluentes. Nas ruas e no leito do Rio Paraguai, esteve à frente das Romarias Fluviais e dos comitês populares, enfrentando grandes projetos logísticos predatórios e cobrando que nenhuma lei fosse votada sem ouvir as comunidades tradicionais. Ele ensinava que a mística, a terra e os símbolos populares comunicam a dor e a resistência do povo com muito mais verdade do que qualquer discurso de gabinete. Essa representatividade o levou a Brasília como delegado eleito por Mato Grosso na Conferência Nacional do Meio Ambiente.
Nas trincheiras do controle social, Neuzo mostrou que a saúde pública e os direitos do campo são faces da mesma luta. Pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Cáceres (STTR), esteve ao lado dos posseiros e da reforma agrária. Presidiu o Conselho Municipal de Saúde de Cáceres (CMS), defendendo o Sistema Único de Saúde (SUS) e o atendimento digno no Hospital Regional sem aceitar manobras políticas ou espetáculos vazios.
A militância progressista de Cáceres despede-se do companheiro Neuzo com o coração apertado, mas conscientes da grandeza do seu legado. Neuzo nos ensinou que fazer política é plantar sementes de justiça com as mãos na terra e os olhos no horizonte dos humildes. As abelhas, as águas do Pantanal e a luta popular de Cáceres perdem um guardião incansável, mas sua memória segue viva em cada canto deste Pantanal que ele tanto amou.
Companheiro Neuzo, presente!